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Que Bom Seria Se São Paulo Fosse Do Lado de Madrid

    Ontem a Rua Augusta recebeu uma atração internacional chamada Madrid. Sim, eu sei que estava em pleno Studio SP mas a sensação de que estava presenciando o nascimento de uma banda de primeiro mundo não me deixava em paz. Adriano Cintra e Marina Vello, dois passaportes muito carimbados, apresentaram um som que poderia ter sido gerado em Londres, Nova York ou, quem sabe, na Espanha.

    Essa semana meus serviços comunitários à MPB estarão em suspenso, porque Madrid será o som das minhas caminhadas, das minhas tentativas de romance, dos meus momentos de solidão. Bem longe das bobagens eletrônicas (no melhor ou no pior sentido, você decide) de suas bandas anteriores, as hypadas Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, Adriano e Marina se revelam densos, orgânicos e emocionantes neste primeiro LP do grupo. Sim, um LP, porque planejam disponibilizar o disco em formato digital apenas pela internet.

     Além das canções de primeira linha, queria comunicar aqui nesse texto, a beleza das vozes de Madrid. Adriano me surpreendeu completamente com um registro que lembra, em muito, o timbre de Brendan Perry, vocalista e compositor da banda australiana Dead Can Dance. Marina Vello possui a estranheza de três cantoras dramáticas: Diamanda Galás, Siouxie Sioux e P.J. Harvey, além de uma presença magnética no palco que justifica a força das canções em sua maioria marcadas pelo som de um piano majestosamente tocado por Adriano.

    Ao entrarem no palco, os dois logo comunicaram “hoje não vamos rir”. E realmente não era o caso. As canções de Madrid são de chorar de maravilhosas, bem escritas e lindamente harmonizadas. De frente para eles, eu não parava de aplaudir, no meio de um povo mais disposto a beber e conversar, o que me fez chorar de arrependimento de não ter estado algumas semanas atrás no Sesc Pompéia, onde sentado e com os olhos fixos no palco, teria podido apreciar mais intensamente essa banda que é a melhor resposta para as confusões e desafetos que geraram a separação desses dois integrantes de suas bandas anteriores. Como num caso de suposta reencarnação, Adriano Cintra e Marina Vello voltam (surgem) no mercado muito melhores. Uma consistência que confirma que apesar de terem nascido no país do futebol, do samba e da bossa nova, Adriano e Marina podem ser de qualquer lugar. Música para todos. Salve Madrid !




Seguindo o Baque do Coração

    Nina Becker é uma cantora aqui de casa. Não vivo sem seu charme, sua música e sua beleza. Marcelo Callado é um dos integrantes da trilogia de músicos que mudou a música de Caetano Veloso em 2006 com o álbum “Cê”, trazendo novo interesse e novas tribos para o som do velho baiano.

    E se de repente o acaso resolvesse juntar Nina e Marcelo em amor e música ? O que poderia surgir daí ? A resposta é o álbum “Gambito Budapeste”, doce e simples resultado desse encontro que passa a substituir (se é que isso é possível) três dos meus mais frequentes álbuns de cabeceira nos últimos dois anos: o “Vermelho” e o “Azul” de Nina Becker e o primeiro LP da banda Do Amor, que depois de decorados, cantados e comentados, terão o merecido descanso no meu Ipod.

    Gambito Budapeste não é um nome sem sentido como possa parecer. Quem joga xadrez sabe: é uma defesa contra a abertura do peão da dama. Metáfora ? Segredo ? Coisas de casal.

    Nina e Marcelo transpiram cumplicidade musical amorosa durante os 41minutos e 34 segundos do disco. Dá vontade de namorar, de encontrar sua cara metade, abusar do clichê “I love you”, enfim, solidão que nada. “Gambito Budapeste” é para wives & lovers.

    O disco revela canções deliciosas em parceria  (“Saudade Vem” e “Marco Zero”) e afirma a maturidade de ambos nas composições solitárias (“Cadê Você”, somente de Nina e “Essa Menina” de Callado). A exceção autoral é o baião “Armei a Rede” de Assis Valente e Arsênio Ottoni de 1951 que, nem por isso, deixa de soar coerente com o restante do álbum.

    Ouvindo “Gambito Budapeste” lembro de outros romances que viraram boa música por aqui: Joyce & Nelson Ângelo, Rita Lee & Roberto de Carvalho, Baby & Pepeu e (sim, por que não ?) Luli & Lucina, parceiros de cama, mesa e arte que fizeram história dentro da nossa MPB . Como Nina Becker e Marcelo Callado, que vivem juntos e se dão bem. Um encontro de dois que eu espero seja infinito. Enquanto dure. “Gambito Budapeste” para você também.




Carta Aberta a Karina Buhr

 

Bom dia Karina

    Como sempre seu show já acabou há horas e não consigo dormir. Sua presença ainda entra pelos sete buracos da minha cabeça e causa efeito mortal sobre o meu sono normalmente tão perfeito e imediato.

    Mais uma vez confirmei ali, na beira do palco e de frente pro crime, tua soberania sobre todas as outras manifestações artísticas desse país. Cantoras aos milhares, atores e poetas em infinita profusão, aqui é o país dos “wannabes” mas só você contém em si todas as possibilidades de expressão. Dócil e perversa como uma gata no cio, você é senhora de tudo. Uma Wanderléa estressada. Uma Nina Hagen em sã consciência. Uma Patti Smith expatriada e desesperada. Uma beleza que me aconteceu.

    Ao apagar das luzes é sempre assim: arrepios de medo e calafrios de prazer atravessam o meu corpo naqueles segundos que antecipam sua chegada até a ribalta. E aí a coisa vira domínio público. Sou arrastado pela turba enfurecida que, assim como eu, quer ver sua rainha de perto, mesmo que isso seja quase um risco de vida em todos os sentidos. Suas letras ferem sentimentos há muito estabelecidos, seu corpo se movimenta urgente e impreciso e a qualquer momento tudo pode acontecer: um microfone pode voar e alcançar um espectador desatento, um passo em falso e você pode cair aos pés de um inocente pagante, coisas aparentemente improváveis dentro do ofício natural de uma cantora e que no palco de Karina Buhr quase sempre vira hábito.

    Ali, entre pagantes e convidados, sempre te desconheço. Aqueles nosso papos sobre a vida e outros bichos, nossos encontros inesperados pelas ruas de São Paulo não viram senhas para trocarmos olhares e cumplicidades durante os 90 minutos de emoção em que você está no palco. Somos dois estranhos. Melhor assim. Gosto de ser mais um na multidão de fiéis de Karina Buhr.

    Antes de te ver em cena, sentia inveja de amigos pertencentes a uma geração anterior a minha e que foram infinitas vezes assistir Gal Costa mudar o mundo em 1971 com seu show, para sempre emblemático, chamado "Fa-Tal". O que teria feito aquela mulher no palco que para todo o sempre seria lembrada como musa daquele verão do desbunde em plena ditadura ? Nunca soube. Mas daqui há 30 anos estarei pronto para responder aos que virão, os motivos que me fizeram estar  num mesmo teatro inúmeras vezes encarando de frente a potência iluminada de Karina Buhr. Minhas paredes ainda terão seus desenhos, minha camiseta “Eu Menti Pra Você” estará desbotada e cheia de furos e o meu LP “Longe de Onde” bem arranhado, confirmações de que um dia eu também tive a minha musa híbrida.

    Agora me sinto pronto para enfrentar o sono dos justos. Escrever essas palavras de amor e devoção fecharam o livro do meu desassossego.

    Como fã, te desejo e tenho medo. Como amigo, te amo e te venero.

    Até o próximo palco e plateia.

    Do seu

    José




Tudo Em Volta é Só Beleza

 

    Eu sei que as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga, o sanfoneiro mais ilustre do Brasil, estão só começando mas para mim já é assunto encerrado. Esse final de semana no Sesc Pinheiros Vanessa da Mata deu a cantada final  nesse assunto .  Transgressora no melhor sentido, inteligente nas escolhas do repertório e superando em muitos momentos as gravações ditas definitivas de Gonzagão, Vanessa da Mata deverá reinar soberana neste ano que promete ser cheio de tributos e homenagens a esse poeta do agreste mas que, com certeza, não trarão o oxigênio vital que eu pude perceber  nesse show intitulado lindamente de “Lua Cheia de Baião”.

    Desfrutando de certa intimidade com a cantora, eu soube que foram apenas três ensaios (teriam sido dois e meio, especulou-se no camarim) o que com certeza aumentava minha tensão na platéia e esfriava a minha mão ao final de mais um número musical do roteiro. Quando o show acabou eu estava exausto de adrenalina e ao mesmo tomado pela vitalidade do que havia presenciado. Vanessa confirmava mais uma vez sua excelência e diferença. Assum preto, acauã e outros bichos voaram alto naquele palco

    Por ser uma compositora autodidata e criar sons de forma totalmente intuitiva, Vanessa não respeita as tais normas que fazem de muitas cantoras e compositores uma gente chata e previsível. Sua música é livre de comandos pré-estabelecidos, suas letras fogem das métricas determinadas e suas harmonias caminham por outras trilhas melódicas. Vanessa sabe correr riscos. Essa sua rica diferença já é por demais conhecida do grande público que a colocou no posto de uma das cinco cantoras mais requisitadas do país ( o resto da lista você mesmo pode completar). Seu primeiro sucesso “Não Me Deixe Só” é hino permanente das pistas, karaokês, rádios e afins até hoje. Mas existe um lado de Vanessa da Mata que o público percebe com certa sutileza e resguardo: a capacidade que ela tem de se apropriar de obras musicais alheias e transformá-las em iniciativa privada. Uma metáfora doida que eu posso explicar. Quem, como eu acompanhou de perto sua evolução nos palcos, avistou ali recriações geniais  de clássicos como “Ana” de Roberto Carlos, “Cabocla” de Nélson Gonçalves” e “Tempo Perdido” do Legião Urbana. Todas foram redimensionadas pelo seu canto e “violentadas” em suas propostas inicias, tornando-se novidade para desavisados e puro prazer para os mais aplicados. A partir dessa minha suposta tese,  vocês podem imaginar os milagres operados por Vanessa nas imortais canções do “Velho Lua”.

    Vestida para matar todos os meninos da plateia de desejo e paixão , entoando notas altíssimas com segurança e pisando descalça um palco cheio de flores por todos os lados, Vanessa da Mata foi a Rainha do Baião, a Flor de Ingazeira, a Morena do Rio Pajeú e, acreditem se quiser, também o último pau-de-arara. Visivelmente emocionada e levando ao público com exatidão  todas as alegrias e tristezas do sertão, Vanessa  foi ovacionada em vários momentos e levou a todos os presentes a grandeza de uma lenda viva sem contudo tocar no óbvio. Irresistível e fundamental

     A música de Luiz Gonzaga nasceu em Alto Garças. Vanessa da Mata é uma deusa de Juazeiro. Duas utopias possíveis que aconteceram em São Paulo neste final de semana. 




Será Só Imaginação ?

    De repente eu ligo a TV e penso que estou vendo um filme estilo biografia de Sandra Werneck no Canal Brasil. Mas não era nada disso. O ator Wagner Moura realmente estava num palco tentando ocupar o posto que foi de Renato Russo dentro do grupo Legião Urbana. E foi assim que eu caí em profunda depressão.

    O ator de Tropa de Elite e algumas novelas da TV Globo estava ali tentando dar tudo de si em caretas , gestos e dancinhas ao vivo para todo Brasil mas durante todo o tempo em que me obriguei a ficar de frente para a televisão, só confirmei que os britânicos The Smiths é que estavam certos: o que se perdeu não volta jamais. Ficam-se os discos e vão-se para sempre as possibilidades de uma apresentação ao vivo. Colar os tais caquinhos do velho mundo ninguém, aqui em 2012, vai.

    Durante todo o show apresentado pela MTV na noite dessa terça-feira, eu entrei em todas as ferramentas sociais para ver a reação do povo e, garanto a vocês, todos estavam bem mais indelicados e furiosos do que eu estou tentando ser aqui nesse texto.

    Sou um cara que vivo fora da realidade. Só ouço o que quero, só vejo o que gosto e só leio o que me interessa, portanto posso jurar que não sabia desse projeto ambicioso e pavoroso até essa semana, quando uma onda de polêmicas me arrastou para essa inevitável visão na noite de ontem. 

    Minha geração teve vários ídolos mas com certeza Renato Russo e Cazuza foram os profetas fundamentais. Minha biblia foram suas canções, meus minutos de sabedoria foram suas letras. Além disso, esses dois grandes poetas do apocalipse nunca separam palco de plateia.Tudo era em carne viva. Tudo ao mesmo tempo agora. Ouvir Renato e Cazuza era ter acesso às suas confissões mais secretas. Encontrá-los ao vivo era mais impactante que qualquer fita em 3D de hoje em dia. Dois seres totalmente pessoais e intransferíveis.

    Diante disso me pergunto: quem teve a ideia de celebrar 30 anos do mito Legião Urbana com um show onde um ator, politicamente correto, tenta nos convencer de que está ali para ser o porta voz de canções que aprendemos a amar por estarem ligadas à vida e obra de um artista sem arte final chamado Renato Russo ? Foi um nítido constrangimento.

    Musica não é dramaturgia, não é papel que se decora. Som é abstrato, não se reproduz com gestos fakes e cara de mau. Durante toda a apresentação me deu vontade de chorar. De raiva.

    Depois da bossa nova, do tropicalismo e do rock dos anos 80, vivemos hoje a fase do karaokê. Zélia Duncan encarna Rita Lee , Maria Rita reproduz Elis Regina e agora Wagner Moura tenta receber o espírito de Renato Russo. Decididamente nossos ídolos não são mais os mesmos e as aparências não enganam não. 

    De frente para essa suposta Legião, a plateia tentava parecer histérica e emocionada, mas na verdade soavam como um bando de amigos aplaudindo aquele coleguinha corajoso que subiu num mesa de bar para cometer um cover previsível e insosso. Tudo bem longe das sensações que aqueles adolescentes de Brasília um dia sentiram ao ver Renato Russo pela primeira vez ao vivo e a cores.

Diante desse tributo, a reação de todos era um completo pastiche. Melhor seria ter passado no telão um vídeo de algum show inesquecível como, por exemplo, ao que eu tive o privilégio de assistir em 1990 no Jockey Club do Rio de Janeiro, onde Renato Russo fez o que bem quis de uma plateia totalmente messiânica e devota ao seu ídolo.

Que me desculpem Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá, peças também fundamentais na engrenagem do mito Legião Urbana, mas o sonho realmente acabou. Não temos mais o tempo que passou.

Quanto ao ator Wagner Moura…bom espero por ela na plateia de um Hamlet ou no cinema mais próximo para aplaudir o seu Tenente Coronel Nascimento.

Câmbio, desligo. Vou ouvir a verdadeira Legião Urbana de Renato Russo. 




Eu I Love You

    Para quem tem todos os capítulos da biografia de Rita Lee, ou seja sua discografia completa, não pode perder mais esse capítulo chamado “Reza” . Para quem não nasceu ontem como eu, mais uma pérola da Titia Lee. Para quem acabou de chegar ao mundo, é um álbum que já nasce velho. Tudo ali não corresponde à realidade pop dos dias de hoje: levadas eletrônicas de Apollo Nove que substituem os teclados oitentistas de Lincoln Olivetti mas não rejuvenescem as idéias sonoras de Rita, letras cheias de trocadilhos infames e deliciosos e a pequena voz que aprendemos a amar nesses anos todos. São estes os ingredientes desse disco que não deve despertar os ouvidos dos adolescentes descolados acostumados à Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Tampouco será o ringtone dos celulares de mauricinhos súditos de NX Zero, Fiuk e companhia ilimitada. Mas esse texto é escrito por alguém bem longe dessas primeiras idades, portanto o tom amoroso com essa “Reza” será uma certeza. Se você não confia em ninguém com mais de trinta, é hora de parar aqui.

    Rita Lee foi a madrinha da minha juventude. Meus patins deslizaram com “Lança Perfume”, meu primeiro beijo foi “Tatibitati” e minha cabeça sempre cheia desse “tal de roque enrow”. Rita arrastou multidões aos ginásios do Brasil, foi musa e rainha de toda uma geração bem antes de toda essa turma de Kid’s, Barões e Titãs botarem a boca no mundo. A música de Rita Lee sempre foi direta, nada de firulas intelectuais e arranjos cubistas. Aliás, esse foi um dos motivos de ter sido “expulsa“ de sua banda Mutantes: Rita queria a sofisticação da simplicidade e os meninos queriam complicar e nada explicar. E a ruivinha endiabrada estava certa: chegou ao coração de cada brasileiro com suas “manias de você”, seus “flagras” e “ti ti tis”.

    Fazia tempo que Rita Lee não pensava em canções inéditas. Seus últimos trabalhos foram incansáveis regravações e registros ao vivo. Além disso, diariamente, causa muito barulho na internet com seus tweets polêmicos causando rebuliço nas redes sociais. Tudo isso andou me cansando como ouvinte e espectador, eu queria a volta de minha Rita Lee linda, leve e solta. Xingamentos à policiais, pontaria certeira em celebridades e um discurso de aposentadoria não combinam com o retrato que tenho da minha cantora, compositora e a mais completa tradução da Paulicéia Desvairada. Eu queria sair pela rua com suas baladas amorosas no headphone, repetir seus refrões pegajosos , maliciosos e tão inteligentes, enfim queria mais “saúde”. E agora, tudo está no seu lugar: Rita Lee e sua “Reza” trazem bons ventos e muita alegria aos seus fãs persistentes que não  desistem por nada nesse mundo de sua deusa Lee. Assim como eu, uma pessoa comum, que tenho andado por aí cantando em alto e bom som “deus me defenda da sua macumba”, “parei de ser aquele ser cafajeste, aquela peste”, “não sei onde estava antes de nascer, não sei pra onde vou depois de morrer”, frases feitas tão perfeitas desse novo disco que só Rita Lee sabe tirar proveito e colocar em canções feitas de poucos acordes e muita precisão.

    “Reza” não veio para mudar o mundo dos meninos de hoje. Poucos marinheiros de primeira viagem irão se aventurar por esses mares de redes piratas e boas casas do ramo. Eu não sou um deles, sou dependente do amor de Rita Lee. Para mim, “Reza” já é mais um álbum referência da vovó do rock. Mais um capítulo da história da americana mais brasileira que esse país já teve. Agora eu não ando mais jururu. 




Pra Dançar, Distrair, Deschavar

 

O samba que me desculpe, aqui em casa Mart’nalia é pop. Adoro suas baladas maliciosas, sua voz malandra que honra a lendária emissão  vocal de seu pai Martinho. Esbanjando carisma e personalidade, ao primeiro acorde, todos logo reconhecem e gritam num unissono de felicidade: “È Mart’nália !” E essa alegria voltou a acontecer hoje quando seu novo álbum passou por debaixo da minha porta. Feito um dependente saudoso, minhas mâos chegaram até a tremer quando peguei o tal disco nas mãos.  Quatro anos sem um disco de inéditas foi muito tempo para um viciado como eu. E agora estou aqui, saciando minha sede enquanto escrevo esse texto.

O disco vem embalado por mãos de ouro: Djavan, Caetano, Gil, Ivan Lins e tantos outros compositores inspirados desse país que correm para o abraço em Mart’nália. Os arranjos sugerem a  visão de jangadas no mar que levam as letras das canções ao sabor da correnteza interpretativa dessa nêga manhosa. A capa, simples e direta, traz sua cara tão conhecida por todos nós,  causando um efeito de confirmação: o conteúdo só pode ser bom. Longe de ser um disco de samba  tradicional, distante das convenções de uma artista de MPB, Mart’nalia confirma aqui, mais uma vez,  ser uma musa híbrida de muitos estilos. Tudo cabe no coração e na música dessa brasileira.

As regravações de “Não Tente Compreender” de Marisa Monte e Dadi e “Vai Saber” de Adriana Calcanhotto que tanto apareceram nas minhas playlists, surgem renovadas. Ousaria dizer com cara de inéditas.  O parceiro de sempre Mombaça aparece num samba com cara de hit, a deliciosa “Que Pena, Que Pena”. A nítida emoção de sua  voz no clássico “Reversos da Vida”  confirma, hereditariedades à parte, a forte sintonia de Mart’nália com a poesia desse nosso  orgulho nacional chamado Martinho da Vila. As faixas com cara de pop irremediável “Namora Comigo” de Paulinho Moska , “Daquele Jeito” de André Carvalho e "Zero Muito" de Nando Reis me pegaram de jeito além do forró moderno  “Depois Cura” de um improvável compositor na vida de Mart’nalia mas que chegou pra ficar, o potente Lula Queiroga. Um álbum de risco no maior e melhor sentido.

E vou pra rua celebrar esse disco com cara de verão em pleno outono tropical. Em cada botequim que passar, darei uma olhadinha pra dentro. Quem sabe Mart’nália não está lá tomando aquele choppinho  e eu entro para dar aquele abraço na minha nêga preferida ? Isso é o meu Brasil. 




O Bálsamo Benigno

   

O inevitável aconteceu. Peguei um avião com destino a felicidade e fui ver Gal Costa e seu show “Recanto” no Rio de Janeiro.

    Desde que o show estreou não tive sossego. Amigos cariocas não paravam de telefonar, jornalistas estampavam suas euforias em jornais, blogs e instagram. Resolvi dar um basta no meu temor de ver acontecer no palco o disco que tomou a cabeça de todos os brasileiros sensatos no ano que passou e gastei minhas milhagens numa manobra de risco.

   “Recanto” foi o lançamento mais pertinente e empolgante de 2011. Gal Costa estava de volta. Não eram aqueles alarmes falsos que palpitaram os corações de todos os fãs em vão durante uma longa temporada (eu, por exemplo, estava infeliz desde 1994 com suas música e diretriz).

    Gal retorna como musa absoluta das divinas estranhezas de Caetano Veloso já devidamente exploradas e declaradas nos discos “CÊ” e “Zii e Zie”. Ruídos, beats eletrônicos e o brilho de letras nada explícitas e deliciosamente metafóricas, foram os elementos que provocaram forte oscilação entre incomodação e prazer nos seus ouvintes  no ano passado. Mas....e agora Gal Costa ? Conseguirá você expressar no palco toda essa grandeza e genialidade ? Exageros à parte, foram-se muitas noites minhas sem dormir de preocupação e expectativa. Por isso esse texto/celebração acontece ainda na madrugada em que saio do show com a certeza da beleza, exatidão na sombra, clarão sem fim.

    Chego à cidade maravilhosa numa noite elétrica onde sou apresentado à uma casa que faz jus à esse show encantado. “Miranda” é um lugar sob medida para realização desse disco no palco: íntimo sem ser desconfortável, acústica impecável e de frente para um cartão postal, a Lagoa Rodrigo de Freitas. Além disso, durante o show, eu pensava, em completo estado de alucinação, que um ciclo se fechava nessa noite nesse lugar tão próximo a antiga Boate Sucata onde Gal, em 1970, se apresentou de forma também transgressora e corajosa inaugurando um período de experiências musicais lisérgicas que desaguaram em seu show mais emblemático, “Fa-Tal – A Todo Vapor”.

    Gal está concentrada, intensa, arrojada, dona da banca. Não é mais escrava de teleprompter, sabe o que está dizendo, encara o público, joga leite na cara dos caretas que pagaram R$ 800,00 e querem ouvir um rosário de hits surrados. Grita em alto e bom som: “Tudo Dói !”, encarna uma suposta popozuda em “Miami Maculelê”, recebe um Tim Maia de frente em “Um Dia de Domingo”, é musa pop em “Baby”, roqueira ativista em “Vapor Barato” e assume a paz de “Mansidão”. Ao lado dela, três músicos corajosos, competentes e dispostos a levar o canto de Gal às últimas conseqüências.

    Ao apagar das luzes e o primeiro acorde soar, saltei em alta velocidade do lugar onde estava e fui para a frente do palco onde fiquei em pé, durante todo o show-transe. Ali, bem perto de Gal, pedi perdão por proclamar seu fim antes da hora, aplaudi e gritei até perder a voz, confirmei a excelência de “Recanto” e me reaproximei de antigas canções. Na saída abracei, beijei e agradeci a quem passasse pela minha frente.

    Gal Costa voltou a ser para mim e nada mais. Agora é dormir e sonhar. A verdadeira baiana está de volta.

 




Pelo Cansaço

Mais um disco de Maria Bethânia acaba de chegar às lojas. Menos uma esperança para mim de que as coisas pudessem mudar em termos de repertório, sonoridade ou conceito de capa. Desde o ano de 2003, quando encontrou a chave de uma nova porta para o seu trabalho, aprofundando–se em modinhas de viola e outros regionalismos, Bethânia nunca mais voltou para as canções de amor intensas, nunca mais cometeu desvarios em cena, muito pelo contrário, acentuou cada vez mais a postura de grande dama da canção, colocando-se distanciada das emoções em carne viva que sempre caracterizaram sua música e atitude desde que chegou por aqui em 1965.

Tudo isso me causa muita tristeza. Aquele menino que escolheu a música brasileira como fonte de inspiração por causa dessa artista que não era atriz e nem cantora mas que reunia em si todas as forças de uma grande personalidade, hoje pega um disco como esse “Oásis” e não sente nada. Uma sensação de estar ouvindo o mesmo disco há quase dez anos.

Já sei que nas próximas semanas todos perguntarão minha opinião, todos tentarão ver em mim aquele olhar vibrante que sempre me acompanhou quando o assunto era Maria Bethânia. Mas não posso, não devo fazê-lo, isso não acontece, como diria Cartola.

Bem longe das afinações e dos bons modos cênicos, Bethânia era um bicho solto no palco. Atravessava ritmos, percorria a arena em sobressalto cantando o amor, desafiando o estabelecido com sua beleza particular, seu timbre de voz agreste e suas opiniões transmitidas nas músicas que escolhia para cantar. Eu sei que o tempo passou e o corpo pede um pouco mais de calma mas agora mesmo antes de colocar esse “Oásis” para tocar, acabo de assistir a uma entrevista  de Bibi Ferreira aos 90 anos cantando “Gota D’Água” e “Basta Um Dia”, consagradas por ela em 1975 e que ainda hoje incendeiam o corpo e a voz dessa grande senhora. Não vejo mais isso em Bethânia. Vejo um palco cheio de luzes bem focadas, músicos com cara de eruditos e ela própria, muitas vezes, me parecendo desconcentrada. Claro que tudo que digo aqui são praticamente insultos se pensarmos nas novas gerações que conheceram Bethânia há pouco tempo e vêem nela o absoluto e o perfeito. Para esses minhas palavras não surtem efeito e tem cara de agressão. Portanto peço que me desculpem esses marinheiros de primeira viagem, mas para mim, que desde o ano de 1977 persigo incessantemente Maria Bethânia, o tédio se instalou.

Esse seu novo (?) disco começa silencioso e compenetrado, apresenta possibilidades de transgressão como a balada inédita de Djavan chamada “Vive” e uma suposta dramaticidade na canção “Velho Francisco”de Chico Buarque mas naufraga em textos que não surpreendem, boleros que já foram melhores  em discos como “Mel” e “Talismã” e um fado de nome...”Fado”  que só me dá saudade de “Maldição” de 1972 e “Estranha Forma de Vida” de 1982. Enfim, paro por aqui para não chorar de saudade pelo tanto que essa cantora foi na minha vida. Uma mulher que me ensinou a fugir do estabelecido, das regras impostas e me mandou ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

Para encerrar gostaria de lembrar aos súditos de plantão, que porventura estejam me lendo aqui e estejam em estado de indignação, que colocar Bethânia na posição de intocável só aumenta essa falta de inquietude e alimenta essa idéia preguiçosa de que uma grande diva não precisa provar nada a ninguém. Um artista só se torna imutável quando encerra sua carreira. Um disco que é posto no mercado merece ser avaliado como qualquer produto, sem ranços de imortalidade. E este “Oásis de Bethânia” é um recanto escuro que eu não quero habitar.




A Placa de Contra-Mão

 

Quando uma pista de dança não vai bem, quando um show não está no seu melhor momento, sempre alguém grita uma frase emblemática que clama por mudanças imediatas: “Toca Raul!”. Essa expressão, que pode soar estranha para brasileiros desavisados (cada vez mais eles existem),  é também sinônimo de forte emoção para os eternos fãs desse compositor anarquista baiano chamado Raul Santos Seixas que deixou sua marca definitiva aqui na Terra e que até hoje é lembrado por seus seguidores fiéis.  É para essa multidão que o filme “Raul – O Início, O Fim E O Meio” foi realizado pelo fotógrafo e cineasta Walter Carvalho. O emblemático cinema Marabá, no centro de São Paulo, foi a tela escolhida para apresentar esse documentário que tinha como platéia os devotos de Raul: todos estampavam camisetas com a cara de seu ídolo, discos de vinil na mão e muitos, muitos óculos escuros. Antes de começar a sessão todos se abraçaram e celebraram esse momento de grande emoção. E eu, conhecedor de longe da obra de Raul, fui arrastado por essa onda de amor, e também gritei e aplaudi em estado de catarse quando a fita acabou.

Não é chique gostar de Raul Seixas. Sua música sempre esteve bem longe das unanimidades que celebram (exaustivamente) a obra de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Raul sempre esteve do lado escuro da rua, sempre abraçou as causas marginais e a vanguarda que,  às vezes, nem ele mesmo sabia que era porta-voz. Raul Seixas é da turma de Sérgio Sampaio, Edy Star, Macalé, Itamar Assumpção e tantos outros que não se “adaptaram” ao grande esquema. Ao aparecer na tela alguns (hoje) bem sucedidos parceiros seus, a platéia ensaia um riso irônico, porque não é possível que o “mago” Paulo Coelho , hoje morando em Genebra, seja o parceiro mais constante de Raul e que um “Big Brother” Pedro Bial tenha sido um fã enlouquecido que assistiu ao mesmo show de Raul 17 vezes. Isso sem contar, é claro, com Nélson Motta, palavra oficial de todos os documentários musicais brasileiros. Mas a figura underground de Raul Seixas resiste a tudo isso, dando um show de originalidade e ousadia ao aparecer na tela em números musicais que confirmam sua genialidade e exuberância.

Raul foi casado muitas vezes. Suas mulheres aparecem várias vezes durante a projeção, todas se contradizendo  e confundindo datas  mas unânimes em colocar Raul no patamar mais alto da paixão. Todas muito amadas, idolatradas e cantadas por ele, não importando se tivessem que muitas vezes dividirem esse “latin lover” em explícitos casos de traição, que elas consideravam um pequeno imprevisto perto de tudo que recebiam em troca quando viravam a tal “Sra. Seixas” da vez.

Num caso de milagre brasileiro, Raul não morreu na miséria nem no esquecimento. Através de seu conterrâneo “punk” Marcelo Nova, no ano de sua morte, ele arrastou multidões por várias capitais e foi elevado ao posto de Grão Mestre da Sociedade Alternativa que tanto pregou. Apesar de sua decadência física e de seu olhar, outrora incendiário, agora mostrar-se vago, Raul ainda era o cara que dava as cartas pelos palcos que passou. Sua despedida desse mundo foi tranqüila e solitária, contrastando  com a vida em fúria que teve nessa encarnação.

Raul queria ser americano. Adorava Elvis Presley e suas esposas eram, em sua grande maioria, estrangeiras. Supostamente rejeitou os requebros, acarajés e outras delicias da Bahia durante toda a sua carreira. Mas ninguém foi mais brasileiro que ele. A confirmação disso está nas ruas onde o povo até hoje celebra sua obra e canta suas canções como se fossem salmos de redenção. Na saída do cinema foi emocionante ver a platéia de nordestinos , jovens de periferia e gente bem longe do mundo das celebridades indo em direção aos pontos de ônibus e metrôs para voltarem para as suas casas felizes de terem visto, na grande tela, o roqueiro brasileiro com cara de bandido mais amado do Brasil. Toca Raul !



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