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Natureza Viva

   

    Silvia Machete chegou cedinho aqui em casa. Seu primeiro disco foi devorado por mim e passado adiante a todos os meus amigos que assim como eu canibalizaram logo essa anti-musa que mistura em si o minimalismo das francesas Birkin e Hardy, os balangandans de Carmen, o suingue de Baby e a loucura visual de Lady Ga Ga. Diante disso, você já deve saber o que vai encontrar em seu DVD chamado "Extravaganza" gravado no Auditório Ibirapuera em São Paulo e  dirigido novamente por Roberto de Oliveira que junto com Nelson Motta foram seus primeiros padrinhos rumo ao mainstream.

    E Silvia Machete desatina. Sobe literalmente no lustre, toca violão invisível, vira uma floresta tropical, canta de tudo e sempre se dá bem. Ataca de parceira de Erasmo Carlos na romântica balada "Feminino Frágil", recicla Jorge Mautner e Paulo Vanzolini nas deliciosas "Guzzy Muzzy" e "Volta Por Cima", invoca Maysa e sua irremediável melancolia em "Só Você (Mais Nada)" e surpreende a todos ao simular uma relação sexual com um...contrabaixo.  

    Em cena, Silvia se utiliza de figurinos supostamente luxuosos que viram vestimentas "trash esquizofrênicas": um decotado vestido amarelo cheio de nós, uma cabeça de amendoim e um collant psicodélico. Os músicos também não fazem por menos, usando cabeças de animais feitas de pelúcia como que saídos de uma Arca de Noé de Lewis Carroll.

     Eu sei que para leitores de primeira viagem, esta mulher que descrevo aqui pode parecer nonsense e impossibilitada de algum conteúdo consistente, mas não se enganem. Silvia, se quisesse, poderia encarnar uma diva careta como tantas que andam por aí e se apresentar de forma comportada e previsível, o que também poderia, estou certo, resultar em um sucesso imediato devido ao seu canto afinado somado a uma completa sensibilidade musical. Entretanto, esse tipo de aproximação "cool" com seu público sequer foi cogitada por ela. Silvia Machete quer enfrentar preconceitos cansados, desorganizar movimentos e bagunçar o coreto, como diria minha avó e tudo isso ela consegue nessa "Extravaganza" em forma de DVD, misturando humor, suor e lágrimas num roteiro que aproxima as chanchadas e o teatro de revista  dos modernos karaokês e inferninhos, resultando numa deliciosa salada pop musical e visual.

     Agora, depois de tantas metáforas e tietagens cometidas por mim nesse texto, só falta você amar, deglutir e mastigar Silvia Machete. Procure por essa "Extravaganza" nas boas casas do ramo e seja feliz. Some like it hot !




Música Importa ?

 

     Essa noite eu tive um pesadelo. Eu sonhei que a nossa música brasileira era homenageada na TV de forma tão patética que eu queria ficar triste mas não conseguia parar de rir. E foi aí que eu vi que na verdade eu estava bem acordado e encarando de frente o chamado Prêmio Multishow.

    Nada ali dava certo, ninguém cantava bem e quando algum verdadeiro merecedor (vitima?) era anunciado, a cara de "quem é esse ?" dos dois apresentadores era constrangedora. Eles só gostavam mesmo é quando aqueles ditos medalhoes da MPB (!) surgiam no palco, aí rolava a festa. Para completar, esse ano tinha um tal juri especializado que batia de frente na hora das escolhas com aquele sempre contrangedor voto popular, fazendo os opostos realmente não se atraírem. Entre os sofríveis numeros musicais, os tais mestres de cerimônia (em perfeito estilo "engraçadinho" de ser), não se entendiam, não divertiam e mal sabiam o que estavam fazendo ali, pensando que a plateia estava acreditando que aquele caos era de propósito mas pela cara do público presente parecia não estar convencendo. Estava tudo dando errado mesmo

    Meu telefone não parava. Era gente xingando, debochando, explodindo de raiva e depressão num caos emocional coletivo gerado pelo esgoto cultural que era transmitido ao vivo. Meus dedos ansiavam pelo botão OFF mas minha alma masoquista implorava por mais. E assim fiquei até o fim.

    Alguém precisa avisar para os empreendedores desse tipo de premiação que a soberania do lixo ja dançou, que tem gente boa espalhada por esse Brasil fazendo musica de valor muito além de Caldeirões e Faustões, verdadeiros artistas que encontraram na internet sua maior vingança e hoje produzem seus discos sem o "apoio" das grandes gravadoras, lotam varios teatros pelo Brasil e são estrelas independentes portanto não precisam aparecer na tela ao lado de "padrinhos" consagrados para não assustar os espectadores em casa, tão acostumados ao padrão globo de baixa qualidade. Apesar da noite de ontem querer refletir democracia, era nitido que ainda estavam dando a melhor fatia do bolo para os cansados hitmakers de sempre ou para as fórmulas desgastadas que cada vez mais duram somente 15 minutos. 

    Durante toda a apresentação eu reconhecia vitoriosos nomes da nova geracão acomodados nas primeiras filas totalmente perplexos. Muitos nem forçavam o sorriso e ficavam de cara amarrada na frente das câmeras porque na verdade não foram convidados para essa festa pobre, estavam lá talvez pela ingenuidade de acreditar que os "grandes" finalmente haviam se rendido ao admiravel mundo novo mas…não se afobe não que nada é pra já. Eles continuam se jogando onde já caíram.

   Bem, vou ficando por aqui porque hoje é um novo dia de um novo tempo que já começou. Volto para o youtube, disparo meu Ipod e vamos pedir piedade, Senhor piedade, como diria Cazuza. Lhes dê, acima de tudo, um pouco mais de coragem.  




A Ideia e o Real Rumo ao Amor Total

 

    No final dos anos noventa, o camarim de Adriana Calcanhotto muitas vezes fazia mais sucesso que o show que acabara de acontecer no palco. O motivo era um menino totalmente calado e andrógino que costumava habitar aquele espaço em diversas noites. Seu nome era Leo e estava ali porque seu pai Péricles, desde sempre, é um compositor com lugar cativo nos álbuns da cantora. Todos que entravam no recinto se perguntavam quem era aquele “filhote” de Bowie e de imediato se encantavam com aquela figura. E comigo não foi diferente. De tanto presenciar essa cena, logo fiquei amigo de seus pais e desde então fui adotado por essa família que eu chamo carinhosamente de Cavalcanti.

     E o rapaz cresceu. Nascido em berço esplêndido musical, Leo Cavalcanti logo cedo deu sinais de que o inevitável iria acontecer: seria cantor e compositor. E foi aí que eu tremi nas bases. E se a tal herança não gerasse bons frutos ? O problema de sempre quando os filhos dos meus ídolos começam a crescer e aparecer. Terão eles o verdadeiro dom ou serão equívocos que vou ter que contornar com elegância pro resto da vida ? Foi assim que a chamada síndrome do pânico afetiva se instalou em mim e eu sumi, abandonando o barco antes dele zarpar.

     Mas como o acaso é meu rei, Leo Cavalcanti se fazia presente em todos os shows que eu estava, se materializava nas mesmas festas que eu havia sido convidado e frequentava os mesmos bares que a minha turma. E quando isso acontecia, ele era incisivo: "Zé, quando você vai me ver no palco ?” E eu sempre respondia com frases desconexas que transmitiam ...nada.

    Quando seu primeiro disco chamado “Religar” chegou às lojas, logo apareceu aqui em casa. Ficou dias em cima da mesa me encarando e quando finalmente abri, descobri um letrista inspirado (deliciosamente verborrágico) apoiado por melodias livres e por demais dançantes pro meu gosto. Adepto que sou das melancolias, escolhi de cara as faixas “Religar” e “Acaso” que foram pro meu Ipod e as outras ficaram hibernando até a noite dessa sexta-feira quando finalmente me vi sem saída (no melhor sentido) e fui até o Auditório Ibirapuera ver o pequeno grande homem chamado Léo Cavalcanti  subir ao palco. E chorei várias vezes.

     Diante de uma plateia lotada que estava ali para celebrar o lançamento em vinil do “Religar” e praticamente (segundo ele mesmo) para fechar o ciclo de shows referentes à esse álbum, Léo Cavalcanti foi muito mais que eu esperava: uma explosão de carisma, uma potência de cantor e um músico inspirado, tudo em doses altamente bem dosadas. E já que eu estava ali para encarar meus receios , sentei na primeira fila e pude constatar sua força sem retoques, sua emoção à flor da pele e seu domínio (precoce ?) de tudo que acontecia no palco. Juro que pela primeira vez, quase que não noto a presença de Arnaldo Antunes, que era seu convidado da noite. A ira cênica de Léo mobilizou meus cinco sentidos

     Enfim, esse meu texto acontece em estado de emergência e de calamidade pública, como diria Clarice Lispector. São palavras que escrevo em busca do tempo perdido. Aquele tempo entre vocação e maturidade de um grande artista que eu perdi por medos que (ainda bem) não se concretizaram. Leo Cavalcanti está pronto. É um cara que se entrega e só faz crescer.

 

    “É incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”

                                                                                                (Caetano Veloso)




Paisagem Útil

    E foi ali na porta do cinema que uma repórter me perguntou: “Como você se sente na pré-estreia da Tropicália ?”. Essa frase que poderia soar completamente sem sentido em 2012, tornou-se emblemática ao final da sessão para convidados do filme “Tropicália” que aconteceu ontem aqui em São Paulo. O documentário, nitidamente um trabalho brilhante de equipe, soa como uma sinfonia superbacana de imagens e sons raros e/ou pouco vistos.

    Mas esta não foi minha primeira vez. Na semana passada, às 10 da manhã, eu sutilmente (!) me infiltrei numa sessão do filme somente para jornalistas e na saída ainda não acreditava no que havia presenciado. Era uma sucessão de verdadeiros tesouros arqueológicos que passavam pelo meu campo de visão que me deixaram em estado de completa histeria emocional. Contundente retrato de um Brasil que para a minha geração era longínquo e utópico misturado a fotogramas de Caetano e Gil em situações e locações que até então só existiam na minha imaginação de menino completamente apaixonado por esses dois gurus baianos, fazem de “Tropicália” um das melhores estreias cinematográficas do semestre.

    O diretor Marcelo Machado, assim como eu, faz parte da geração que sentiu a Tropicália na carne quando tudo já era lenda. Não estivemos na passeata contra guitarra elétrica, não fomos à missa de sétimo dia do estudante Edson Luis e nem sequer cogitamos sermos atingidos pelo violão de Sérgio Ricardo atirado na plateia durante um festival num ato de fúria. Tudo isso veio antes, o que causou uma eterna sensação de que perdemos a melhor página da nossa história. Mesmo que tenham sido dias de sangue e opressão, os tais últimos anos da década de 60 foram fundamentais para se entender tudo que veio à seguir nesse país, em termos de cultura e civilização.

    Como num liquidificador de doido, conviviam harmoniosamente (!) nesse período o cinema de Glauber Rocha, o teatro de José Celso Martinez Corrêa, os parangolés de Helio Oiticica e..... a música de Caetano, Gil, Tom Zé e os Mutantes. Dessa trituração, destilação e coagulação nasceu o tropicalismo. E ninguém estava preparado para isso. Um Brasil que ainda vivia dos últimos suspiros do sucesso da bossa nova, da era JK e do sonho de um dia se tornar um país de primeiro mundo, se viu de repente numa emboscada cultural que misturava jovem guarda, o folk nordestino, a poesia concreta e figurinos psicodélicos. Neste momento, como numa inevitável bifurcação, a população brasileira se dividiu em atitudes e opiniões e na pressa, muitos pegaram a estrada errada e tentaram voltar atrás. Tinha gente que negava Caetano e Gil três vezes, depois pedia perdão. Tinha nêgo que aplaudia “Domingo no Parque” e ia pra casa ouvir “O Barquinho”. Enfim, esquizofrenias possíveis daquele tempo.

    Esclarecendo para confundir, como diria Chacrinha, o documentário de Marcelo Machado é a chave mestra que abre as portas desse divino e maravilhoso mundo  chamado tropicalismo. A direção de arte junto com a pesquisa profunda do material visual e sonoro, são imprescindíveis para o resultado final que arrancou aplausos frenéticos ao final da sessão. Tinha gente (eu) que gritava mais que espectador de festival da Record. Feito projeção em 3D, “Tropicalia” expande os cinco sentidos, amplia as intenções e se torna, desde já, a mais completa tradução desse movimento musical que ainda hoje apaixona e atrai multidões no mundo todo.

    Então, estamos conversados. Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores e o peito cheio de amores, o filme “Tropicália” organiza o movimento, autenticando eterna primavera. Corra para os cinemas. Por que não ?




O Que Não Tem Fim Começa Outra Vez

 

“Djavan é sempre a mesma coisa”. “Adoro aquele disco ao vivo dele”. Acusações e chavões como esses não me atingem. Djavan aqui em casa é rei. Um cara que começou como tantos pelas noites e bares e alcançou a potência de um gênio como compositor e cantor. E olha que nem posso dizer que estava com saudade de suas canções porque constantemente recorro à pasta com sua discografia completa no meu Ipod. Seus jogos musicais e suas letras supostamente complicadas e sem sentido, sempre foram literatura em forma de canção em meus ouvidos.

Esse texto acontece de forma simultânea enquanto ouço seu novo álbum “Rua dos Amores”, completamente inédito e autoral depois do projeto “Ária” que foi muito comentado e planejado mas comigo não surtiu o efeito esperado. Eu quero Djavan como ele é: intérprete único de suas próprias maquinações.

Não há nada de novo nessa “Rua”. Ainda bem. É um disco que simplesmente prossegue sua obra e aumenta sua consagração para mim. Logo na contracapa ele já anuncia:

                                       Produtor e Arranjador – Djavan

Assim, já de antemão, sabemos o que encontrar ao primeiro play. Nesses tempos de independência comercial, o disco sai pela sua Luanda Records com distribuição da Universal, o que aumenta sua liberdade  e nos dá a certeza de que Djavan fez o disco que bem quis. Apesar de estar longe de ser um álbum retrospectivo, o projeto gráfico de Mariana Ochs (simples e bonito, por sinal) abre o baú de recordações fotográficas de Djavan no encarte e mostra um senhor de bem com a vida e sorriso aberto na capa principal. E no momento que a bolacha começa a rodar surgem aquelas rimas ricas, as tais frases feitas encaixadas com precisão e as harmonias gêmeas de tantas outras cometidas por ele ao longo de sua carreira mas que fazem parte do nosso inventário musical de tal maneira, que não ousamos chamar de cópias e sim prosseguimentos.

Então tá tudo dito e eu acredito num claro futuro, como diria Caetano. Para quem ama djavanear, "Rua dos Amores" sacia essa sede, para os insistentes em chavões críticos e amarguras, mais um motivo para ataques e desconfianças. Eu sou do clã do Djavan.

 

“Triste é o cara que só sabe o que é bom, que não sai do Leblon, que nunca ficou à toa”

                                                                                             (“Triste é o Cara”)




Morena dos Olhos D'Água

Finalmente chega ao mercado o disco de Alice Caymmi. Eu digo finalmente porque desde que ouvi sua voz de timbre rascante e grave no DVD de seu pai Danilo, os meus ouvidos não pararam de clamar por mais este bendito fruto musical oriundo da mais sagrada raiz chamada Dorival , o nosso Buda Nagô, segundo Gilberto Gil.

Alice Caymmi neste seu primeiro trabalho confirma heranças e revela influências. Compositora da maior parte das canções, ela é a cara de sua geração: joga nas lojas um disco somente com 10 faixas (sendo que três delas funcionam como bônus) e deixa de fora duas canções (“Menininha” e “Não Deixe”) que figuraram somente em seu MySpace. Além disso, as estranhezas das programações eletrônicas convivem em harmonia com as sonoridades acústicas fazendo a ponte ideal entre os “mil anos luz” compatíveis com a sua idade e o passado barroco e nobre de seu avô.

Ouvir Alice Caymmi significa inevitavelmente unir as várias pontas de uma mesma estrela: seus tios Nana e Dori e seu pai Danilo misturam-se desordenadamente (no melhor sentido) em sua garganta. Sua gravação eletrônica e visceral de “Sargaço Mar” confirma isso. No entanto, o canto de Alice não causa sensação de cópia, muito pelo contrário, sugere um passo à frente.

Eu adoro a capa do disco. Polêmica e moderna, gerou diversos comentários negativos de gente que ama o passado e não vê que o novo sempre vem, como diria Belchior. Alice é uma garota do seu tempo e como tal, cheia de energia vital para o inusitado, o que se reflete também no projeto gráfico. Um forte impacto visual que deverá causar desejo de aproximação por parte do público nas lojas.

 “Água Marinha”, a primeira faixa do álbum, é o retrato das pretensões musicais de Alice, uma conjunção perfeita que lembra o acelerado “Trenzinho Caipira” de Villa Lobos e as palavras cheias de mar de Dorival Caymmi comandada por sua voz que ainda se encontra em estado bruto mas já demonstra forte personalidade.  A forte percussão e as palavras de louvor à Iemanjá arrepiam em “Sangue, Água e Sal” e as canções quase de ninar “Arco da Aliança” e “Mater Continua” confirmam a beleza quase adolescente que atravessa o disco.

“Tudo Que For Leve” é sua aproximação inevitável com os sons que vem da Bahia, um típico axé disfarçado de música pop e “Unravel” é um cover da cantora islandesa Bjork, que surpreende ao final do disco ganhando nova dimensão através do canto de Alice que, apesar de supostamente tão brasileiro, encontra-se em condições de navegar por tantos outros mares.

Enfim, seja bem vinda Alice Caymmi. Sua voz fará diferença nesse vasto país de cantoras. Que assim seja. 




So Many Stars



    Um novo cantor acaba de chegar ao mercado. Cercado de mistérios e com cara de estréia, Thiago Pethit lança seu segundo álbum.  Assistido de perto pelo genial produtor Kassin, a personalidade musical de Thiago muitas vezes revela-se inédita nas canções (em sua maioria) escritas em inglês desse novo disco. Até mesmo sua voz, uma velha conhecida minha,  em muitos momentos soa diferente. Tudo para melhor. Distanciando-se dos cabarés esfumaçados, Thiago toma agora o rumo das lisérgicas baladas de David Bowie e arrebata seus (novos ?) ouvintes como eu, que já acordo com o disco "nas orelha" e só desligo lá pelas três da madrugada. 
    A inteligência e a sofisticação de Thiago Pethit foram pressentidas por mim logo no inicio de sua carreira, quando seu album "Berlim, Texas" buscava inspiraçao em assuntos musicais pouco ou nada consultados por quem faz música jovem brasileira: Brecht, Tom Waits e a embaixadora no Brasil desses temas, a dama indigna Cida Moreira. Aliás, é ao lado dela que Thiago defende "Surabaya Johnny" neste seu novo disco com outras unhas e dentes, superando em muito, acredite, qualquer versão anterior desse clássico alemão. O disco  conta ainda com a maluca beleza mais fofa do pop brasileiro, a menina Mallu Magalhães que coloca sua mínima voz (no melhor sentido) a serviço de uma das mais belas canções do disco, a confessional "Perto do Fim".
    Nos arranjos tudo surpreende: as dores de amores viram música de pista, flertes fatais e outras alegrias estão escondidas em harmonias tristes e/ou dissonantes. O disco se revela não somente a cada track e sim a todo momento. Deliciosas "turbulências", sensacionais "pegadinhas".
    Minhas preferidas? Incessantemente ouço "Dandy Darling" (trocadilho delicioso com o nome da transexual favorita de Warhol, a mítica Candy Darling), danço e choro com "Pas de Deux" and my heart changes ouvindo "Moon". Ao final de cada audição, constato que o título "Estrela Decadente" causa efeito contrário em nós, seus ouvintes: Thiago Pethit é um sucesso. Um ponto de luz na cena musical indie brasileira. Reconheça você também isso. Seu Ipod vai agradecer.




Um Velho Baiano, Um Fulano, Um Caetano, Um Mano Qualquer

 

    Que mistério tem Caetano ? Para os pais, um rei. Para os filhos, um mestre. Para os que virão, um eterno muso.

    Nesse mês de agosto Caetano Veloso faz 70 anos e dispensou o vedetismo das comemorações. Está calado. O tempo passando não lhe causa motivo de tantas alegrias e celebrações. No entanto, é incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer: a Universal lança agora, na data de seu aniversário, um tributo à obra desse santamarense ilustre e filho de Dona Canô.

    E novamente Caetano Veloso é a vanguarda. Gringos descolados e brazucas da nova era prestam uma homenagem bem longe do previsto, desrespeitando canções sagradas e tornando quase inéditas canções manjadas.

    O disco abre com a banda inglesa Magic Numbers dando novo sentido a “You Don’t Know Me’, sendo também o primeiro (quem sabe o único ?) video clipe do projeto. Em seguida, a cantora Céu vem sem grandes surpresas em “Eclipse Oculto mas as energias se recuperam rápido com "the great pretender” Chrissie Hynde cantando “The Empty Boat” e misturando-se aos + 3 Kasin, Moreno e Domenico, reunião essa que já havia acontecido em 2004 quando Chrissie apareceu por aqui para alguns shows.

    “London, London” emociona no registro dos Mutantes, mesmo em formação mutilada, por fazer em nossas cabeças aquela antiga conexão com o período em que todos comungavam da mesma Tropicália. O músico performático Beck leva a quase escondida “Michelangelo Antonioni” a respirar novs ares apesar de manter o andamento quase hipnótico da canção. Mesmo trazendo novidade harmônica, Jorge Drexler soa frio em “Fora da Ordem”, pouco acrescentando, com sua voz  morna, às imagens  cinematográficas da letra.    

    Marcelo Camelo mantém a chama de sua inquietude ao transfigurar a bela e simples “De Manhã”, uma das primeiras canções de Caetano, que chega até aqui totalmente rejuvenescida e fundamental. Tema composto durante sua terrível fase de exílio “Quem Me Dera” reaparece em forma de mantra  pelas mãos de Devendra Banhart e Rodrigo Amarante, dois dos músicos mais pré-pós-hippies   da nova geração.

    “Alguém Cantando” de 1977 mantém suas intenções acústicas e desérticas no registro do cantor carioca Marcelo Frota mais conhecido pelo nome de MoMo. Menina que, infelizmente, tem feito mais sucesso no exterior do que aqui em nossas terras, Luisa Maita surge brasileira e moderna na regravação de “Trilhos Urbanos”. A faixa “Janelas Abertas Nº 2” talvez seja a gravação mais emocionante do disco por ter se tornado um fado na voz de Ana Moura. Canção gravada por Maria Bethânia em 1971, ressurge aqui em nítida homenagem a Amália Rodrigues, intérprete que sempre foi motivo de adoração por Caetano e sua irmã.

    Quem esteve na plateia de Tulipa Ruiz durante esses dois anos sabe que o ponto alto de seu show era sua interpretação para “Da Maior Importância” gravada por Gal Costa em 1973. Alguns fãs jovens desavisados pensavam até que a canção era de sua autoria tamanha intimidade e afinidade. Sua gravação, finalmente nesse tributo, confirma tudo isso. O cantor espanhol Miguel Poveda reafirma  em “Força Estranha” as afinidades de Caetano com o país de Pedro Almodovar. Faixa que poderia (quem sabe ?) figurar em qualquer um dos filmes desse cineasta das cores fortes. As afinidades do cantor qinhO com as sonoridades da banda Black Rio sempre foram evidentes em seu trabalho. Sua versão para “Qualquer Coisa” é o melhor exemplo dessa influência, uma das melhores faixas do tributo.

    Coisa linda é a voz de Seu Jorge em “Peter Gast”. O arranjo criado por Toninho Horta e Arismar Espirito Santo parece sob medida para a voz de Jorge que emoldura com firmeza e doçura os versos dessa canção de 1983. E o disco encerra em estado de graça com a voz de Mariana Aydar em “Araçá Azul” confirmando as experiências sonoras dessa moça que não para de crescer dentro do cenário da nova música jovem brasileira. Faixa totalmente autoral e definitiva.

    Enfim vamos comer Caetano. Porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu. Como uma encadernação vistosa feita para iletrados, esse “Tribute ” revela o prazer legítimo e o movimento preciso de Caetano Veloso. 




Bem Mais Que Dois

    Essa semana vou ter que entrar de férias. Parei na contramão e que tudo mais vá pro inferno, meu bem. É muito disco bom invadindo a minha casa: o essencial álbum de Tatá Aeroplano, as delicias de amor de Nina Becker e Marcelo Callado em “Gambito Budapeste” e a força musical da banda Madrid. E quando meu mundo já parecia completo, na madrugada dessa segunda-feira, dando uma ultima passadinha pelo facebook (sim, mas quem não ?) encontro milhares de posts escritos por tão diferentes pessoas irmanadas numa só emoção: o disco novo de Tulipa Ruiz, “Tudo Tanto” estava na rede em forma de link e pronto para baixar. E lá se foi meu sono. E assim chegaram finalmente aos meus ouvidos, as tais novas canções ansiosamente aguardadas dessa menina que tomou de assalto as mentes dos jovens mais antenados do ano de 2010 com seu primeiro álbum “Efêmera”, fazendo com que toda moça e toda rapaz com menos de 20 (e pirados como eu com mais de 30) soubessem todas as suas letras de cor e dançassem freneticamente  na frente do palco até o último show da turnê.

    Muito já se escreveu sobre as diferenças e importâncias de Tulipa Ruiz. Eu também fui um deles e cometi algumas palavras logo lá no início. Essa garota é papo firme e virou uma espécie de midas musical: por onde sua garganta privilegiada passou, deixou sinais e quem esteve por perto se deu bem . Porque Tulipa é a mina da vez, desde a Rua Augusta até o Baixo Leblon. Seu forte sotaque paulista (apesar de uma adolescência mineira) não assustou o povo da Bahia e nem afastou os moleques de Porto Alegre. Todos querem Tulipa. E o mundo lá de fora também, fato que se confirmou quando ela tomou o rumo das capitais internacionais e abalou Paris, como diriam os gays mais descolados dos anos 70. Uma unanimidade merecida e bem-vinda.

    “Tudo Tanto” padece do temor de ser o segundo disco de uma artista que foi imensamente aclamada por crítica e público em sua primeira jornada. Muitos amigos já haviam ouvido em sessões privadas e super confidenciais, e eu fiquei na minha. Tinha medo de não gostar, tinha medo de não me apaixonar. Ufa, que alívio. Deitado no escurinho do meu quarto em estado de completa concentração, morro de amores da primeira a última faixa e levo um susto com o silêncio que invadiu a minha cabeça quando os 44:37 minutos de emoção acabaram. Tulipa e seu irmão, cara, metade Gustavo Ruiz Chagas conseguiram superar as expectativas e vão muito além do esperado. A canção “Desinibida” salta imediatamente dos headphones para o meu coração, “Víbora” destila veneninho bom nas minhas veias e “Dois Cafés” revela-se a dose exata de futuro e passado, com Tulipa reverenciando e compartilhando vozes com o mestre pop de todos nós, Lulu Santos.

    “Tudo Tanto” confirma súditos e aproxima novos curiosos. Um disco de primeira. A segunda viagem de Tulipa, agora ainda mais linda, segura e madura. Compre, olhe, vire e mexa. Procure conhecer melhor Tulipa Ruiz.




Uma Presa Fácil Nessa Jungle Freak

    Existe um rapaz que deu o primeiro passo rumo a essa quase unanimidade que hoje desfruta a musica jovem de São Paulo. O nome dele é Tatá Aeroplano. Apesar disso, enquanto todos deslizaram rápido na esteira rolante da consagração em rádios e jornais, Tatá ainda desfruta de um certo anonimato entre as maiorias. Entre seus colegas, no entanto, é considerado o pai de todos. Por que isso acontece ? Temperamento cool do artista ou maldade dessa gente ? Seja como for a hora é essa. Seu novo disco é a confirmação definitiva de que esse menino é o cara. Letras cotidianas e deliciosas em levadas que lembram os antigos iê iê iês, Tatá com certeza fez, até agora, o seu melhor álbum.

    Minha primeira vez com Tatá foi lá nos primórdios, quando fui assistir a um dos primeiros shows do grupo Cansei de Ser Sexy (muito antes de tudo que você já sabe) e me deparei com um DJ tocando um som arrojado e sem vergonha para aquele momento. Era um tal de Lado B de Caetano, lado Z de Gil e outras tantas, que eu e meu amigo Marcus Preto partimos pra cima dele. E adoramos de cara. Um maluco beleza do bem que logo começou a me mandar newsletter com seus projetos e algumas demos para a minha casa.

    E o tempo passando. Outros “bons” elementos que conheci também nesse período pelos botecos e clubes foram preparando seus trabalhos e chegando lá como Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz e Thiago Pethit. Mas cadê o Tatá ? Sempre em frente, fazendo álbuns e shows com sua banda Cérebro Eletrônico, sendo cada vez mais valorizado pelo bando do Studio SP mas nada de chegar o seu momento de consagração midiática e mitificação pelo grande público. Seu novo disco tem tudo para chegar a esse grande momento que, por mais desencanado e blasé que um artista seja, sempre deseja.

     Tendo como parceiros nos arranjos um trio de ouro formado por Junior Boca na guitarra, Dustan Gallas no baixo e Bruno Buarque na batera, Tatá é a mistura exata de Odair José com Sérgio Sampaio. Um maldito romântico. Suas baladas dizem ao coração e fazem pensar. Desfrutando de apenas dois parceiros (os poetas Léo Cavalcanti na desbocada “Sartriana” e Arruda na melancólica “Uma Janela Aberta” ), Tatá compõs sozinho e muito bem para esse álbum. Suas harmonias viram apego e suas letras causam dependência química. A cada faixa que ouvi pela primeira vez, imediatamente elegi como minha preferida e quando vi...tinha 10 músicas para chamar de minha !

Então não tenho tempo a perder, volto para o disco agora. E você com certeza já não deve estar mais me lendo. Já entrou no site http://www.tataaeroplano.com , baixou o álbum (free!!!) e está pronto para ser do clã do Tatá. O nosso rei, o nosso guru, o muso de qualquer estação Tatá Aeroplano.



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