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No Corpo, Na Alma e No Coração

Ontem fui ver o novo show de Maria Bethânia intitulado “Carta de Amor” no HSBC Brasil aqui em São Paulo. Não teve jeito. Minha mente resiste, meus amigos insistem, meu coração vacila e lá estou eu na primeira fila.

Tenho dito insistentemente aqui que a trajetória de Maria Bethânia está acima do bem e do mal, que o meu modesto olhar critico (quase insignificante diante de tanta grandeza) jamais interferirá em sua potência. Definitivamente é uma artista que soube construir uma carreira. O meu defeito desde menino (7 anos de idade !), foi o excessivo mergulho em sua obra, um processo quase obsessivo que me fez, nos últimos anos, sentir um certo cansaço ao ouvir seus discos e comparecer aos seus shows por saber de cor todas as manobras, todos os gestos, todo o processo de criação. Mesmo assim, ontem me sentei na plateia desarmado de qualquer tipo de defesa, pronto para receber a emanação dessa estranha força bruta que habita o Brasil desde 1965.

O que mais me incomodou, como sempre, é o que acho mais louvável: sua plateia (hoje em dia muito jovem)  de fiéis que somente obedecem aos seus instintos primitivos de adoração e que, a cada braço erguido ou nota musical estendida, entram em completo delírio e descontrole emocional muitas vezes interrompendo a cena de Bethânia que ao sorrir e agradecer só aumenta o transe da multidão. Para eles sua deusa não desafina, não apresenta um roteiro previsível, não demontra sinais de cansaço.

 Até 1996, o publico que acompanhava Bethânia eram os habitués de seus espetáculos dos anos 60 e 70 que amadureciam junto com ela. Após a estreia no Rio de Janeiro do show “Âmbar” (com lotação modesta, eu estava presente) houve uma crescente aproximação de meninos muito jovens, verdadeiras procissões de iniciantes que tornaram “Imitação da Vida” (agora passaria a se chamar assim) um dos maiores fenômenos de venda e crítica na carreira de Bethânia. E seguiram em frente com “Maricotinha” e “Brasileirinho”.

Mas voltemos ao “Carta de Amor”. O que mais me impressionou ontem foi constatar que as canções do disco “Oásis” que na minha opinião é o mais morno de sua discografia (confesso, nem comprei) ganham importância no palco com a dramaturgia de Bethânia. Ali com o auxilio luxuoso de seus olhares cheios de significados, seus dedos em riste e sua respiração ofegante acompanhando as intenções da letra, músicas como “Calunia” e “Barulho” gravadas no álbum de forma acústica e sonolenta, adquirem relevância. Outros dois bons momentos são a canção “Estado de Poesia” inédita de Chico César e a lembrança de “Escândalo” de Caetano Veloso que, apesar de regravada a exaustão, encontra em Bethânia um grande momento. Falando em seu irmão, a ideia de colocar “Não Enche” no roteiro decididamente não funciona. Já em casa assistindo a diversos vídeos no YouTube, constatei que em nenhum deles Bethânia consegue acompanhar a velocidade da melodia, tropeçando nas palavras constantemente. Mesmo presa ao teleprompter (péssimo vicio adquirido para uma mulher que se justifica por sua liberdade de movimentos em cena), Bethânia também escorrega nas armadilhas poéticas  de Arnaldo Antunes, mostrando-se tensa nas novidadeiras “A Nossa Casa” e “A Casa é Sua”. No mais, é Bethânia. O fogo da fantasia, o precipício de aventura, o abismo do mistério.

Até o final do ano “Carta de Amor” vira Blu-Ray, DVD, CD enfim, de todas as maneiras que há de se amar Bethânia e que farão seus seguidores correrem para as prateleiras. Um show que decididamente não entra na minha lista de clássicos mas que para os mais jovens com certeza tem cara de eterno. Ok, vocês venceram.




Nothing (But Flowers)

 

Eu tenho ido pouco ao teatro. Dois motivos me levam a isso: desatenção aos cadernos culturais e o medo de errar. Estar sentado numa plateia de frente para um ator sofrível encenando um texto ruim é desesperador. Além disso, São Paulo tem uma diversidade muito grande de peças o que sempre me faz entrar em parafuso na hora de escolher. Sendo assim, a música e o cinema tomam conta da minha agenda. Mas existe um nome que muda essa minha rotina: Monique Gardenberg. Toda vez que essa diretora inventa um novo espetáculo, estou na primeira fila. E neste ultimo sábado aqui em São Paulo não foi diferente, fui até o Sesc Pinheiros para assistir “O Desaparecimento do Elefante”.

Para este show/teatro/cinema acontecer, duas alquimistas se juntaram ao toque de Midas de Monique: a cenógrafa e diretora Daniela Thomas e a atriz e também diretora Michele Matalon (que decididamente o Brasil precisa conhecer melhor por sua dedicação e talento). Neste ambiente totalmente feminino, a obra de Haruki Murakami, autor dos cinco textos apresentados, encontrou o seu melhor lugar. Cenas aparentemente banais que desaguam em estranhezas fizeram desse escritor um dos maiores sucessos da literatura mundial. Num hibrido de surrealismo e normalidade, seus contos clamam por encenação. Sabendo disso essas três mulheres criaram um circo de imagens onde atores/trapezistas se lançam no espaço das palavras de Haruki sem rede de proteção.

Não vou me estender aqui nas minúcias de cada texto apresentado, na precisão crítica de cada ator, prefiro descrever minha emoção ao ver Kiko Mascarenhas ser aplaudido em cena aberta várias vezes durante o seu monólogo intitulado “O Comunicado do Canguru”. Há tempos não via um ator tão arrebatador no palco. Meu desejo de gritar "bravo" e interromper seu transe era incontrolável . O primeiro impacto eu havia sentido na peça “Os Altruístas” dirigida por Gui Weber  onde sua presença em cena arrancava faíscas do palco. Quero falar também de uma menina chamada Fernanda de Freitas que eu confesso nunca tinha visto ou ouvido falar e que mostra perfeita consciência do que está representando no conto “O Pássaro de Cordas e as Mulheres da Terça-Feira” e finalmente comento aqui a confirmação do talento de Marjorie Estiano e André Frateschi, dois (já) velhos companheiros de Monique Gardenberg em suas encenações.

A trilha sonora é um caso a parte dentro do espetáculo. Bem longe de serem meramente incidentais, as canções escolhidas são melodias/textos que, somados a dramaturgia, provocam a plateia e trazem (quem sabe) novo sentido aos escritos de Haruki. Gal Costa, The Temptations, Criolo, Raul Seixas, Carl Douglas e Caetano Veloso surgem inesperadamente causando espanto e prazer durante toda a narrativa.

E aqui encerro meu inventário de emoções sobre “O Desaparecimento do Elefante”. Você com certeza encontrará outros motivos de discussão, outros pontos de encantamento como acontece ao desvendarmos uma boneca russa. A obra de Haruki Murakami é bem mais perigosa e cheia de mistérios que toda a nossa vã filosofia. Por isso, vá ao teatro.

Até a próxima, Monique.




Guerreiro Coração

Hoje vou dar um tempo nas minhas alegrias. Emilio Santiago, o cantor das multidões da minha geração, deixou esse mundo. Também perdi um amigo atencioso, um companheiro de várias noites aqui em São Paulo, onde nunca deixei de repetir incessantemente a importância de sua voz nesse país desatento.

Emilio começou pelos bares da noite. Foi ali que impressionou clientes acostumados a beber e esquecer quem está no palco, despertando a curiosidade de produtores musicais que logo o levaram para o mundo do disco na década de 70. Dono de um timbre grave e sedutor, Emilio ficou conhecido pelos primeiros sambas que cantou, num momento em que o Brasil aplaudia também outros companheiros de estilo como João Nogueira, Jorginho do Império, Roberto Ribeiro e Luiz Airão. Ao mesmo tempo que se dava bem nos ritmos populares, Emilio arriscava outros repertórios com inéditas de Gonzaguinha, Djavan e muitas regravações de clássicos de seus ídolos como Dick Farney. Até que um dia a fonte secou. Era hora de mudar. Aquele momento em que o cantor sofre pressões de gravadora e seu público começa a hibernar. E foi assim que nasceram as “Aquarelas”, projeto descaradamente comercial que realmente colocou Emilio na pole position das grandes vendas e casas de shows lotadas. Nesse momento me distanciei do seu canto mesmo consciente de sua merecida vitória. Por ironia, foi durante essas “minhas férias” de sua música que conheci pessoalmente Emilio, esse homem elegante, sempre atento com tudo e todos ao seu redor, reconhecendo e aplaudindo seus companheiros de vida e arte. Definitivamente, usando o chavão (muitas vezes aplicado de forma leviana hoje em dia) um cara do bem.

Há muitos anos, antes mesmo de ter uma gravadora, venho lutando pelo relançamento da obra completa de Emilio Santiago. Agora que ele gozava de uma serenidade artística onde podia tudo, como gravar um disco com João Donato e no próximo projeto voltar ao samba popular, seria fundamental que esse país entendesse e consumisse sua obra por completo. Seus discos na gravadora Universal são verdadeiras obras-primas: arranjadores fundamentais e canções imortais registradas por uma garganta privilegiada. Espero que agora façam justiça.

Não quero mais escrever. Hoje fico parado aqui no meu canto. Aqui nesse momento, silêncio e sentimento. Como diria Caetano, estou triste, tão triste, estou muito triste. A voz do povo se calou. 




Um Prato A Se Ofertar Que Me Faz Salivar

 

Setenta e um. Esse era o numero que não saia da minha cabeça ontem quando estive (mais uma vez e sempre) de frente para o palco onde Ney Matogrosso apresentava seu novo show “Atento aos Sinais” aqui em São Paulo no HSBC Brasil. É inacreditável que esse “senhor” de 71 anos continue a insistir no novo deixando para trás seu passado de glorias e mantendo o vicio de se reinventar. Aliás, eu estou mentindo. Ney não mudou. É o mesmo provocador que surgiu no cenário musical brasileiro dos anos 70 e derrubou dogmas e preconceitos com sua nudez descarada, uma garganta privilegiada e alma de artista único. Agora, num cenário que é uma verdadeira arena eletrônica, ele aparece cercado por músicos gigantes vestindo um figurino tecnológico e  um rosário de canções basicamente inéditas. É o verdadeiro astronauta lírico da canção de Vitor Ramil que aparece no bis.

Misturando Paulinho da Viola, Blackberry e Criolo (deu pra entender ?), “Atento aos Sinais” demonstra ser a arte final de dois de seus projetos anteriores: “Olhos de Farol” e “Inclassificáveis” que, apesar de extraordinários e fundamentais no momento em que foram lançados, parecem ceder a vez a esse novo show que esquenta o repertorio para um disco que ainda nem foi gravado. Sim, Ney Matogrosso tem a coragem de fugir do velho e surrado esquema “turnê de lançamento” e enfrenta seu público com uma sequência de canções desconhecidas que seduzem de cara toda a plateia formada por “mocinhas” de cabelos brancos e meninas completamente descontroladas na frente do palco. E eu no meio delas gostando, adorando, gritando feito louco, alucinado e criança.

Durante muito tempo Ney entrou em cena mudo e saiu calado. Desfazer-se do personagem com agradecimentos ou com a palavra sem música parecia impossível. Era inacreditável nos anos 80 ver ele enfrentando programas histriônicos como  o Cassino do Chacrinha sem nenhuma forma de comunicação a não ser sua atitude e seu som. Hoje em dia um grito seco e grave de “boa noite” ecoa em vários momentos durante o show e se for preciso ele volta para um suposto segundo bis e diz que não irá fazer por não ter mais nada a apresentar. E seus súditos respeitam, se calam e seguem em direção a rua. Na saída o assunto continua: discussões sobre seu carisma, a beleza das canções, a grandeza do cenário, demonstrando a total e completa satisfação.

“Atento aos Sinais” é um nome emblemático na atual situação da música brasileira. Enquanto algumas cantoras resolvem comemorar 10 anos de carreira pedindo a benção de Elis e Tom, dando um basta (quem sabe definitivo ?) em seus projetos autorais em busca de 15 minutos de vendas e sucessos, Ney Matogrosso olha para o futuro e resolve comemorar seus 40 anos de estrada pedindo ao senhor do tempo que abençoe os que virão. E se dá bem. E nos faz bem. Como diz a canção: é assim que se faz, é assim que se ama.

Enfim, eu não tenho mais palavras para Ney Matogrosso. Quem acompanha meus rabiscos sabe da quantidade de textos apaixonados e agradecidos que eu já cometi aqui. É um respeito tão grande que se mistura ao temor diante de tanta grandeza. Apesar de se revelar um cara comum longe do palco, eu não quero intimidade, fujo de camarins e aproximações. A minha sede eu mato na plateia sempre atento aos seus sinais. Ney Matogrosso é segredo. É sagrado. 




A Menina Ainda Dança

 

Domingo é dia de culto por isso nada mais apropriado que os devotos de Baby do Brasil invadissem ontem a casa de shows HSBC e transformassem o lugar numa grande igreja de fiéis dessa que é a mais completa tradução da palavra carisma.

Foi no final do ano passado que a noticia se espalhou: Baby do Brasil daria um tempo em suas pregações e retomaria sua carreira musical em grande estilo aconselhada por seu filho Pedro Baby e sob os cuidados administrativos de Paula Lavigne. Não deu outra. As ferramentas sociais transbordaram de vivas e expectativas. Até que o grande dia chegou e a cidade do Rio de Janeiro assistiu primeiro e completamente maravilhada ao retorno fundamental dessa garota carioca chamada Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade que um dia juntou seus trapinhos e foi de mala e coragem para a Bahia procurar sua turma e encontrou virando Baby Consuelo de todos nós.

Os Novos Baianos foram (são) pedra fundamental dentro da história da música brasileira. Malucos, cabeludos e geniais, eles criaram as dunas do barato em plena praia de Ipanema , aprenderam tudo com João Gilberto, viveram num completo “estado de sítio” em Jacarepaguá e viraram profetas e poetas em plena ditadura. E Baby Consuelo sempre com eles. Musa inspiradora de diversas canções e voz predominante dentro do grupo, Baby ainda escolheu ser mãe coragem, ficando grávida de Pepeu Gomes no meio desse festejo hippie, onde nem sempre tudo era plenitude e prosperidade. A barra também ficava pesada. Desavenças artísticas e pessoais aconteciam e o dinheiro era quase sempre artigo raro entre a “rapeize”. Até que um dia o sonho acabou. Era hora de encontrar novos rumos afetivos e profissionais.

Em 1978 chegava às lojas o primeiro disco solo de Baby onde ela esbanjava personalidade (“Eu Sou Baby Consuelo”), prosseguia sonoridades da antiga turma (“Brasileirinha”), dava a partida em sua parceria “eterna” com Pepeu (“Ele Mexe Comigo”), além de uma homenagem direta a cantora Ademilde Fonseca (uma de suas maiores influências) no choro que dá nome ao disco “O Que Vier Eu Traço”

Com a chegada dos anos 80 o Brasil pirou de vez. Era o fim da ditadura, a fase das ombreiras gigantes e uma enxurrada de teclados e outros elementos eletrônicos que devastaram a nossa MPB. Baby,sempre  ligada no seu tempo, virou uma espécie de mulher maravilha da aldeia tupi com cabelos coloridos, visual extravagante e letras cósmicas e telúricas. Programas de televisão exibiam sua imagem incessantemente, nas rádios era campeã de execução e nos palcos arrastava multidões.

No final do milênio as coisas mudaram radicalmente. Se para melhor ou pior, você decide. Seu nome agora era Baby do Brasil e os ideais religiosos emudeceram sua obra pop durante parte dos anos 90 e completamente na década seguinte.

Tudo isso que escrevi até agora foi para situar você que talvez não saiba ou não compreenda o porque do verdadeiro estado de histeria e expectativa que tomou conta de tudo e todos nessa noite de domingo em São Paulo.

O show estava marcado para as 20hs mas bem antes os mais afoitos já estavam em estado de alerta do lado de fora. E não paravam de chegar famosos, descolados, povo da moda, músicos e afins. Frases como “não vejo a hora de começar” e “o que será que ela vai cantar ?” eram repetidas incessantemente até que, assumindo minha ansiedade, corri para a frente do palco. E foi ali entre risos e lágrimas, suor e cerveja que eu vi um dos shows mais emocionantes da minha vida. Hipnose e delírio. Catarse e paixão. Ao meu redor gente de todas as idades compartilhavam do mesmo êxtase cantando, pulando e fotografando. Uma verdadeira sintonia espiritual, um prazer transcendental. Os mais velhos choravam com “Acabou Chorare” e os mais novos saudavam os antigos hits “Sem Pecado e Sem Juizo” e “Menino do Rio” como se tivessem nascido há dez mil anos atrás. No palco, cercada por uma banda competente e consciente de sua força, Baby Consuelo do Brasil comandava a massa com ares de grande sacerdotisa. O que ela cantava era lei, o que dizia era sagrado. Ao final do show o transe parecia não ter fim: inimigos se abraçavam, apaixonados se beijavam e todos procuravam um tapete voador para voltar pra casa. Noite de amor. Noite de fogo e de paz.

Enfim, depois de tudo que eu disse aqui só resta uma pergunta:

E agora, Baby ? 




Let's Spend The Night Together

    Stonewall, Galeria Alaska, Boate Medieval e Corinto. Se esses nomes não lhe dizem nada, você está na casa dos 20 ou 30 anos de idade. Se bateu aquela sensação de nostalgia e um aperto no coração, você já tá pra lá de Marrakesh. Mas nada disso importa: a noite é para todos. E apesar da crueldade do calendário virando suas folhas incessantemente, as luzes continuam acesas para quem quer se jogar.

    “A Volta da Paulicéia Desvairada” de Lufe Steffen mantém o foco de suas entrevistas apenas no mês de março de 2012 mas quem um dia tomou ácido e pirou, bebeu todas e vomitou, sabe que os figurinos saem de moda, as música mudam, os bares abrem e fecham e o povo da noite continua o mesmo: lindo, leve e solto.

    Feito Regina Casé em “Brasil Legal”, Lufe e sua equipe saem em busca de gente simples e extraordinária percorrendo o lado “hard” da  rua Augusta, entrando em diversos clubes de São Paulo e dando de cara com uma turma disposta a desabafar e botar seu bloco na rua. Muitos nem sabem direito onde estão de tanta “colocação” mas causaram forte reação de gritos e aplausos na plateia do Festival Mix Brasil com seus discursos dissonantes e alucinados.

    Como um cara da noite, é claro que eu reconheci rostos que me causaram forte adrenalina: Silvetty Montilla, a única e verdadeira drag que até hoje arrasta uma legião de súditos por onde passa, o “eterno” hostess Michael Love do clube A Lôca, o DJ “unanimidade” André Pomba e o pensador Vitor Ângelo, figuras carimbadas do underground paulistano que dão seus depoimentos e fazem pensar causando o contraponto ideal com a maioria dos entrevistados, praticamente recém-saídos da adolescência e... já muito loucos !

     Em sua maioria são meninos e meninas que vem da periferia para terem na noite a sua hora da estrela. E fazem de tudo por isso: cabelos assimétricos, piercings nos lugares mais inusitados e uma edição fashion de abalar ! Todos demonstram imensa liberdade, uma leve consciência social e sexual somados a uma vontade extrema de ser feliz. O filme encontra com vários casais homossexuais dispostos a cometerem beijos sem censura na grande tela e que em momento algum escandalizam e sim despertam uma sensação de alívio para quem, com mais de 40, ainda lembra dos “cóiós” que levou pelas ruas num tempo em que ser gay era coisa pra macho.

     São muitas as “parties” espalhadas por São Paulo em 2012, todas com forte assinatura musical e propostas de engajamento (calma ! no melhor sentido). O povo que frequenta essa ou aquela festa abraça a causa e procura por adesão durante o filme dando depoimentos sedutores quase como um flyer ambulante. E os estilos musicais são os mais variados: durante a exibição ouvimos rock, bate-estaca, samba e outros bichos coreografados “in loco” nas pistas soando com uma autêntica marcha do povo doido, como diria o poeta Gonzaguinha.

    E tudo corre as mil maravilhas até aparecerem as “barbies”, que assim como os mauricinhos e patricinhas causam pânico em gays libertários. Ao surgirem as imagens de uma grande boate paulistana em que esse tipo de gente habita, o cinema entra em estado de espera e silêncio. Ao ouvirmos que o dono do estabelecimento detesta a música que toca lá e ouve no seu carro somente bossa nova, inicia-se quase um princípio de vaia. Ainda bem que logo os ursos (rapazes peludos, fora do peso e muitos felizes)  invadem a fita debochando dessa  gente e trazendo o documentário de volta ao seu tema: loucura pouca é bobagem.

    Durante todo o tempo fiquei pensando na imensidão de São Paulo. Luffe não expande sua pesquisa para outros espaços por questão de opção temática mesmo assim fiquei pensando nos clubes de forró, nas boates da Vila Olimpia, nos puteiros do Centro e nas baladas da Vila Madalena que poderiam também gerar outras mil horas de fita e milhares de depoimentos. Como diria Fernanda Abreu, não importa se existe razão, a noite não tem pecado nem perdão. Então....salve a Paulicéia Desvairada !




A Cada Compasso Um Cenário

 E chega às lojas a trilha sonora de um filme que não existe. “Trabalhos Carnívoros” de Gui Amabis causa efeitos cinematográficos urgentes em seus ouvintes e decididamente não é um álbum para se ouvir no escuro do quarto. Pede locações e personagens.

    Andando pelas ruas de São Paulo com o disco na orelha, virei videomaker imaginário, inventando cenas e criando clipes, entretanto, muito longe do perturbador “Pena Mais Que Perfeita” estrelado por Daniel de Oliveira e dirigido por Julio Andrade e Rafael Grampá que é a mais completa tradução da faixa 4 do disco e que já está disponível no Vimeo. Nunca imagem e som foram tão felizes para sempre.

    Gui Amabis é um cara de cinema. Trabalha com a sétima de arte desde sempre, compondo temas para diretores como Heitor Dhalia, Cao Hamburguer e tendo como parceiros outros músicos inspirados como Beto Villares e Dengue. Dessas experimentações nasceram, em 2011, o grande “Memórias Luso/Africanas” que tiveram participações importantes como Criolo, Tulipa Ruiz e Céu, entre outros. Naquele momento ampliei meu foco e fiquei atento. “Memórias...” tocou muito aqui em casa e foi indicado como essencial para amigos e afins.

    Feito de sonoridade densa e letras que falam de amor e dor com muita inspiração, “Trabalhos Carnívoros” é certeiro no que se propõe. Gui compõe pequenas sinfonias dramáticas sem soar piegas ou pretensioso, tendo como resultado um falso lago de águas tranquilas onde a qualquer momento fortes precipitações musicais podem acontecer como é o caso de “Consulta Mental” um soco inesperado no estômago perto do final do disco.

    Os arranjos são divididos entre o próprio Gui, Regis Damasceno, Dustan Gallas e seu irmão Rica Amabis gerando uma unidade musical absurda que transforma o álbum numa das sete maravilhas do ano de 2012 (as outras seis é com você !). E, apesar de sua forte experiência como músico, Gui revela-se o tempo todo como um grande cantor ao longo do disco. Sua voz grave e quente é, na maioria das vezes, o primeiro acorde, dispensando as manjadas introduções instrumentais.

    Então, vamos ao disco. Está na internet para baixar de graça, encontra-se à venda nas grandes lojas, enfim, disponível de todas as maneiras que há para se poder chegar até ele. Agora é com você. “Trabalhos Carnívoros” é para ser devorado.

Banquete-ê-mo-nos.




Mein Herr

    Thiago Pethit trancou literalmente seu público num campo de concentração na noite desse sábado no Sesc Pompéia. Uma concentração de amor e fúria, de inteligência e emoção. Feito o grande irmão de “1984” de George Orwell, ele praticou sua doutrina musical levando 800 pessoas ao delírio. E a temperatura subiu literalmente no palco e na plateia com um calor senegalês que acontecia no recinto e que só aumentava a onda de tesão e paixão que emanava de Pethit.

    Trazendo para a cena basicamente o repertorio de seu novo disco “Estrela Decadente”, Thiago deu ainda mais provas de sua sofisticação ao cantar três clássicos do passado numa concepção totalmente pessoal e intransferível: “De Cigarro em Cigarro” (uma dor de cotovelo dos anos 50 conhecida na voz de Nora Ney), “Love, Try and Die” de Jards Macalé e um Assis Valente (“Good-Bye, Boy”) que virou autêntico Bertolt Brecht em sua voz. Além disso, Thiago ilumina e traz para seus súditos tão jovens, o poder atemporal da cantora Cida Moreira que entra no palco no primeiro bis e arrebata desavisados ao mesmo tempo que  arranca lágrimas de seus discípulos nos duetos “Speak Low”, “Bilbao Song” e “Surabaya Johnny”.

    Thiago Pethit é um garoto esperto. Sabe tirar proveito de suas limitações e aproveita todos os espaços para manifestar-se artisticamente como um todo. Debocha do chavão que tanto maltrata a nossa música (“tira o pé do chão!”), contesta com veemência a frase com que Marisa Monte causou tanto furor em seu último show (“amar é simples”), projetando no fundo do palco sua própria verdade: “amar é foda”. E ao ser chamado de lindo por meninas desesperadas na fila do gargarejo, rebate polêmico: “eu sou é linda !”.

    Os figurinos de Pethit e sua banda também são um caso a parte dentro do show. Vestindo um macacão de foragido de um manicômio, penitenciária ou fábrica (você decide!), a imagem de Thiago lembra incessantemente a silhueta esguia de David Bowie no meio dos anos 70 onde sua androginia deu lugar a uma alfaiataria estranhamente elegante. A banda também surpreende com uniformes militares que dão ao show como um todo essa cara de Berlim dos anos quarenta.

    Thiago Pethit é (como ele próprio se define) um artista totalmente independente dos grandes esquemas: gravadoras e empresários não atingem o seu bunker. Sua liberdade musical é cumprida em grande estilo e cada vez mais alcança seu ideal. Se essa estrela é decadente que seja cada vez mais divina essa decadência. Thiago Pethit é o cara. Fique de olho nele.




80 Discos Para Ouvir Antes de Viver

 

 

 

1) Adriana Calcanhotto – Senhas (1992)

Título mais que apropriado para esse segundo disco da cantora gaúcha que chegou ao mercado com um primeiro álbum confuso e sem a inteligência musical que já transparece aqui. Elegante, minimalista e fundamental

 

 

 

2) Alaíde Costa – Coração (1976)

Para quem não conhece, pense em Nina Simone. Para quem é fã, sabe que aqui está uma cantora que nunca abriu mão da qualidade em seu repertório. Um disco/aula que deveria ser obrigatório para muitas cantoras de hoje.

 

 

 

3) Alcione – A Voz do Samba (1975)

Descubra aqui, no primeiro disco da Marrom, porque é considerada até hoje uma das maiores sambistas do Brasil. Ela sabe tudo.  Canta muito. Nobody does it better.

 

 

 

4) Ângela Rô Rô – Ângela Rô (1979)

Cantora, compositora e pianista que não pede perdão por seus pecados. Sua vida polêmica poderá transformar-se sempre em belas canções de amor jamais ouvidas. Ponto de referência.

5) Antônio Carlos Jobim – Matita Perê (1973)

Tom Jobim não deveria constar em listas. Deveria ser tema obrigatório nas escolas. Não dá para entender o Brasil sem conhecer sua obra. E ponto final.

6) Arnaldo Antunes – Iê Iê Iê (2009)

O grande titã da poesia moderna. Dono de uma voz que assusta ao mesmo tempo que soa tão doce, Arnaldo acerta em cheio quando se mistura com a nova geração do rock nesse álbum eletrizante que revisita a Jovem Guarda e a música brega dos anos setenta com muita personalidade.

7) Astrud Gilberto – Beach Samba (1966)

Inicialmente apenas a esposa de João Gilberto, grava quase que por acaso a canção Garota de Ipanema e se torna a musa eterna e mundial da bossa nova.  Seus discos são disputados em sebos e afins. De sua vida particular ninguém sabe.

8) Bebel Gilberto – Tanto Tempo (2000)

Um orgulho nacional. O mundo deseja e aplaude sua música . Na virada do milênio, Bebel Gilberto depois de muito tempo de estrada e várias tentativas profissionais, chega ao seu lugar merecido com esse disco que é o ponto de partida na cena eletrônica cool brasileira.

 9) Belchior – Alucinação (1976)

No país da amnésia cultural, Belchior há pouco tempo foi lembrado em horário nobre por ter desaparecido do Brasil. E sua música ? E seus discos ? Vamos começar por esse aqui. Eu prometo que depois de ouvi-lo ele nunca mais vai desaparecer da sua vida. 

10) Beth Carvalho – Andança (1969)

Beth Carvalho é sinônimo de samba e alegria. Por isso seu primeiro disco, cheio de canções românticas e suaves, é fundamental para entendermos que, se ela quisesse, também poderia ser uma deliciosa intérprete da MPB.

11) Beto Guedes - Amor de Índio (1978)

Quem não se enrolou num cobertor em volta de fogueira e cantou uma música de Beto Guedes que atire a primeira pedra. O medo de amar é o medo de ser livre. Ouça já.

12) Caetano Veloso – Qualquer Coisa (1975)

Como escolher um álbum de Caetano Veloso ? Decidi por esse clássico dos anos setenta que mistura as referências que o acompanham até hoje: o passado fundamental, o presente essencial e o futuro que ele sabe apontar como ninguém dentro da música brasileira.

13) Cássia Eller – Com Você Meu Mundo Ficaria Completo (1999)

Com a morte prematura de uma das intérpretes mais autênticas que o Brasil já teve, vieram as cópias. Mas não se engane: só Cássia Eller é a original. Ouça esse disco e compare.

14) Cazuza – Barão Vermelho 2 (1983)

Ídolo de toda uma geração. Um poeta sem censura que deixou uma obra irrepreensível. Esse segundo álbum do Barão transpira vigor e tesão. Letras maliciosas acompanhadas pela guitarra feroz de seu parceiro Frejat. Artigo de primeira necessidade.

15) Céu – Vagarosa (2009)

Mulher é o que não falta na MPB. E são muitas querendo um lugar ao sol. E foi exatamente essa paulista, de temperamento cool e som minimalista, que foi eleita como uma das grandes de sua geração. Avessa às exposições gratuitas da mídia, Céu chega ao segundo disco, segura de seu lugar conquistado.

16) Chico Buarque – Construção (1971)

Discípulo direto de Noel Rosa, Chico volta da Itália disposto a contestar o poder autoritário e violento que se instalou por aqui. Se deu mal. Se deu bem. Constrói a partir desse disco uma obra que conta a história do Brasil.

17) Cibelle – The Shine of Dread Electric Leaves (2006)

Nesses tempos de falta de talento e urgência de acontecer, Cibelle é um oásis no meio do deserto. Corajosa, primal e contemporânea, ela faz o que quer com sua música. Inicialmente mais uma integrante da tribo eletrônica do produtor Suba, nesse segundo disco ela dá um salto qualitativo que quase não podemos alcançar. Ainda bem.

18) Cida Moreyra – Summertime (1981)

A rainha dos loucos , a diva dos gays, a musa dos cabarés. Adjetivos que qualificam essa cantora paulistana que não tem governo nem nunca terá. Gravado ao vivo e dirigido por José Possi Netto, esse é  um disco emblemático e fundamental.

19) Clara Nunes – As Forças da Natureza (1977)

A rainha do samba que começou sua carreira atirando em diversos estilos musicais até atingir o alvo principal, chega ao meio dos anos 70 com esse disco maduro que mistura religiões, raízes e grandes compositores.

20) Djavan – Alumbramento (1980)

Conhecido como eterno campeão de vendas, Djavan é bem mais que isso. Suas letras e harmonias supostamente simples revelam um músico arrojado e moderno . Esqueça o que você já conhece de sua obra. Procure pelo que você ainda ouviu . Aqui está um bom exemplo: um disco hermético e nítido ao mesmo tempo.

21) Dóris Monteiro – Dóris (1971)

Dona de um suingue único, Dóris tem cara de samba-rock mas vai bem mais além. Sabe ser muitas numa só intérprete. Como podemos confirmar nesse álbum que mistura samba de breque com Caetano Veloso e a poesia de Vinícius de Moraes.

22) Edu Lobo – Cantiga de Longe (1970)

Edu Lobo é um maestro soberano. Compositor de belas melodias,tem ao seu lado importantes letristas. Um imponente músico dono de uma voz grave emocionante. Nesse álbum ele alterna temas instrumentais com pérolas da poesia brasileira como Cidade Nova.

23) Elba Ramalho – Capim do Vale (1980)

Uma mulher que veio do agreste para tomar de vez o sul maravilha. Descabelada, de voz rascante e pernas de fora, até hoje ninguém sabe catalogar Elba Ramalho. Ainda bem. Nesse segundo disco ela ainda aparece em estado natural antes de virar a Tina Turner brasileira.

 

 24) Elis Regina – Essa Mulher (1980)

A maior cantora do Brasil se apresenta aqui madura e dona de um repertório potente que mistura Cartola, Baden Powell, Joyce e João Bosco. Nada mais a ser dito.

25) Elizeth Cardoso – Canção do Amor Demais (1958)

Maas afinal porque a pedra fundamental da bossa nova é um disco de Elizeth Cardoso? A resposta para essa pergunta está na versatilidade e sofisticação dessa cantora que sempre foi considerada “A Divina” por todos. Uma cantora do tempo da delicadeza. Procure por ela.

26) Elza Soares – Do Cóccix Até o Pescoço (2002)

A mulher negra e favelada que venceu todas as barreiras, nunca se deu por vencida. Esse disco lançado no começo do novo milênio prova que Elza Soares não tem idade nem estilo. Uma sambista pop brasileira.

27) Erasmo Carlos – Sonhos E Memórias (1972)

Erasmo não é parceiro de Roberto Carlos. É muito mais que isso. Mergulhe em sua discografia e vai achar um compositor inspirado e de alma eternamente jovem, que o diga Marcelo Camelo e Marisa Monte seus discípulos musicais. Comece por essa pérola dos anos setenta que eu indico aqui.

28) Fafá de Belém – Tamba Tajá (1976)

Fafá enfrenta governos e preconceitos com sua risada escancarada e sua voz única. Aqui em seu primeiro disco, os sinais de sua coragem musical e pessoal já ficam evidentes. Mistura mitos e lendas de sua terra natal com dores de amores e se dá bem.

29) Fagner – Manera Fru Fru Manera (1973)

Antes de ser arrastado pelo gosto popular, Fagner era uma potência musical que atraiu para si todos os olhares. Elis Regina. Nara Leão e Roberto Carlos foram os primeiros a pressentir sua importância. Depois .,...aí já é outra história. Seu primeiro álbum é um exemplo de coragem e inteligência. Uma voz árida que o Brasil aprendeu a amar.

30) Fernanda Takai – Onde Brilhem Os Olhos Seus (2007)

Quando uma cantora pertencente a uma banda de rock resolve cantar a obra de Nara Leão a gente tem que aplaudir. Um disco inesperado e eterno.

31) Francis Hime – Passaredo (1977)

Maestro do naipe de Tom Jobim e Edu Lobo, Francis tem uma obra de dar orgulho. Durante muitos anos foi o principal parceiro de Chico Buarque, como podemos verificar nesse álbum que tem duas obras primas dessa dupla: Passaredo e Trocando em Miúdos.

 

 32) Frenéticas - Frenéticas (1977)

Quando as discotecas invadiram o mundo, o Brasil não quis ficar de fora e aí surgiram As Frenéticas, um bando de malucas cheias de beleza e talento que gravaram esse primeiro disco com a benção de Nélson Motta e Rita Lee. Abra suas asas, solte suas feras. Ainda dá tempo.

33) Gal Costa – Água Viva (1978)

Aos 33 anos de idade e quase dez de carreira, Gal Costa encontra a fórmula do sucesso: um repertório sofisticado que atinge o popular e leva sua música rumo às grandes vendagens. Um disco fundamental.

34) Gilberto Gil – Expresso 2222 (1972)

Recém chegado de um exílio forçado em Londres, Gil apresenta nesse trabalho a síntese de suas influências: mistura Jackson do Pandeiro, com Banda de Pífaros de Caruaru, música pop com sua poesia afiada. E assim tem sido. E sempre será.

35) Hyldon – Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (1975)

Hyldon fez o povo brasileiro delirar com suas baladas de amor. Foi sucesso absoluto nas rádios. Caetano Veloso cantou Na Sombra de Uma Árvore num show e o grupo Kid Abelha, muitos anos depois, emplacou novamente a canção que dá nome a esse álbum clássico dos anos 70.

36) Ivan Lins – Nos Dias de Hoje (1978)

Antes das canções açucaradas de novela, Ivan Lins foi um compositor articulado dentro da ditadura. Sua obra gravada por Elis Regina não deixa dúvidas disso. Nesse álbum aparecem suas entradas e bandeiras políticas.

37) João Bosco – Galos de Briga (1976)

João Bosco e seu parceiro Aldir Blanc através de metáforas e recados diretos, enfrentaram de frente os anos de chumbo desse país.  Uma bíblia para se entender o Brasil desse período.

38) João Donato – Quem é Quem (1973)

Segundo especialistas, ele é o verdadeiro pai da bossa-nova e eu assino embaixo. Além disso, João Donato é pop e adora se misturar com galera jovem por isso sua obra nunca envelhece. Nesse álbum aparecem vários de seus sucessos enfileirados como A Rã e Até Quem Sabe

39) João Gilberto – João (1991)

Quando o grande mito da bossa nova resolve dar sinal de vida, todos correm para ouvir. E foi assim com esse álbum de João. Mais do mesmo. Tudo novo de novo.

40) Jorge Ben – Jorge Ben (1969)

Jorge Ben deveria ser verbete de dicionário. Sua música não tem comparação. Seu estilo é único. O dono do samba esquema novo. Esse disco influenciado diretamente pelos tropicalistas é uma bagunça deliciosa que Jorge soube dar ordem e progresso.

 

41) Karina Buhr – Eu Menti Prá Você (2010) 

Karina é o maior exemplo de como existe gente louca e genial espalhada por esse país. Cantora despreocupada com afinações dentro de um corpo de atriz que não interpreta personagens pré-estabelecidos, Karina veio para confundir e entrou no mercado dando um pontapé na (sempre) porta fechada das grandes gravadoras. Uma diva do final dos tempos.

42) Luiz Gonzaga Jr – Luiz Gonzaga Jr. (1973)

O compositor da alma feminina dos anos oitenta teve, antes e depois disso, uma obra política potente e indignada que fez história. Bons exemplos aparecem aqui nesse disco: Moleque e Comportamento Geral

43) Luis Melodia – Pérola Negra (1973)

O moderno malandro carioca desceu o morro pelas mãos do poeta Waly Salomão e ganhou a cidade. Dono de uma personalidade única tanto na composição quanto no registro vocal. Uma maravilha contemporânea. Esse seu primeiro disco apresenta as peças que Melodia movimenta no tabuleiro até hoje com primazia.

44) Lulu Santos – Tempos Modernos (1982)

O rei do pop. Não existe rock brasileiro sem ele. O midas das rádios e gravadoras. Com todos esses adjetivos ainda não fiquei satisfeito: Lulu Santos é Lulu Santos. Nesse seu primeiro álbum solo, ele dá as cartas: letras que sabemos de cor e melodias que iremos assobiar pelas ruas eternamente.

 

45) Marcelo Camelo – Toque Dela (2011)

Peço perdão aos seguidores da seita “Los Hermanos” por não eleger aqui um álbum da banda mas considero fundamental esse terceiro disco solo de Marcelo Camelo. Melodias irretocáveis, letras devastadoras e uma voz que atinge direto no coração, fazem desse álbum artigo de cabeceira para quem sabe amar.

46) Márcia Castro – Pecadinho (2007)

Quando me perguntam por cantoras novas eu logo digo Márcia Castro, uma baiana, transgressora, sexy e dona de um repertório irrepreensível. Não tem prá ninguém. Esse disco surpreende pelo olhar inesperado aos compositores do passado (Sérgio Sampaio e Jorge Mautner) e por trazer a nova música baiana longe dos axés (Luciano Salvador, é o cara). Ouça já e aprenda a ficar exigente com o que anda por aí.

47) Marcos Valle – Mustang Cor de Sangue (1969)

Compositor de todos os movimentos e estilos: bossa nova, samba, jazz e até jingles num homem só. Tudo com toque de mestre. 

48) Maria Alcina – Confete e Serpentina (2009)

Maria Alcina não tem medo de nada: é festiva, brega, sofisticada e corajosa. Sua música acompanha seu raciocínio: é livre, atual e irrestrita. Nesse disco ela mistura amigos novos e antigos num liquidificador de doido que é a sua cara. Louco é quem me diz que não é feliz. Maria Alcina é feliz.

49) Maria Bethânia – Drama 3º Ato  (1973)

Álbum emblemático da artista mais interessante da MPB. Misturando teatro e música, Bethânia é rainha soberana para sempre. E só.

50) Maria Rita – Maria Rita (2003)

O Brasil parou quando Maria Rita chegou ao mercado. Fila na porta da loja, fila na porta do show, fila no camarim. Eu estava em todas elas e não me arrependo. Seu primeiro disco tem conteúdo, emoção e novidade. Ainda tá valendo.

51) Marina Lima – Fullgás (1984)

Não adianta nem tentar: Marina Lima é, foi e sempre será a maior musa da música pop brasileira. Compositora inspirada, cantora de registro único, uma personalidade de arrasar. Escolhi esse álbum mas se eu fosse você procurava por todos.

52) Marisa Monte – Mais (1991)

Antes de se empolgar com muitas vozes femininas de hoje em dia procure pela musa inspiradora da maioria delas: Marisa Monte. Pedra de rumo fundamental da música brasileira que surgiu no início da década de noventa, Marisa é inteligente no que se propõe e dona de um talento único. Após um primeiro disco eclético, nesse segundo álbum ela começa a compor e fazer diferença.

53) Martinho da Vila – Canta, Canta, Minha Gente(1974)

Assim como João Gilberto inventou a batida perfeita, Martinho da Vila inventou o samba ideal: uma cuíca, letras maliciosas, uma ginga na voz e tá pronta a obra de um dos sambistas mais importantes do Brasil. Atenção para a faixa que encerra o disco Festa de Umbanda. Não tem prá ninguém

54) Maysa – Ando Só Numa Multidão de Amores (1970)

Um Cazuza de Saias. Uma Ângela Rô Rô muito à frente de seu tempo. Comparações para você entender que Maysa nasceu antes de todos, mas sua vida e obra servem para qualquer geração.  Aqui nesse álbum sua voz já não é mais a mesma, os arranjos tentam modernizar sua essência, mesmo assim é pra chorar de emoção.

55) Milton Nascimento – Minas (1975)

“A voz de Deus é a voz de Milton” assim Elis Regina definiu esse músico extremamente sofisticado que conseguiu chegar aos corações e mentes do mundo todo. Esse álbum mistura temas instrumentais, vocalises e letras feitas de imagens fortes e muitas vezes surrealistas. Uma jóia.

56) Moreno + 2 – Máquina de Escrever Música (2000)

A música jovem do Brasil andava chata e sem recado quando Moreno Veloso, Kassin e Domenico Lancelotti descobriram a nova pólvora: beats eletrônicos minimalistas, violões e letras desconcertantes. E nada mais foi como antes. Atenção para Deusa do Amor e Eu Sou Melhor Que Você.

57) Moska – Muito Pouco (2010)

Assim como acontece com o amor, o disco mais recente de um artista  costuma ser o nosso preferido mas dessa vez eu juro que é verdade: esses dois álbuns de Paulinho Moska definem de uma vez por todas suas qualidades de músico, cantor e compositor.

58) Ná Ozzetti – Ná (1994)

A mais completa tradução da vanguarda paulista. Cantora de timbre único que mistura em seu repertório a fina flor da paulicéia desvairada. Tá tudo aqui neste seu segundo disco solo.

59) Nana Caymmi – Voz e Suor (1983)

A voz que traz consigo “o som das águas” como diz Maria Bethânia, chega ao seu formato ideal nesse disco emocionante ao lado do pianista e arranjador César Camargo Mariano. Clássico dos clássicos.

60) Nando Reis – A Letra A (2003)

Nando Reis sempre foi o lado mais pop dos Titãs e o mais romântico também. Quando essas idéias deixaram de fazer sentido na banda ele se mandou para outros planetas e se deu bem. Letrista de primeira, encantou Marisa Monte e Cássia Eller que levaram suas canções para milhões. Dono de um estilo jovem insuperável, Nando dá um banho em muito “emo” que se leva a sério por aí.

61) Nara Leão – Nara (1964)

Em seu primeiro disco, a musa da bossa nova já mostrava que iria dar trabalho para quem a quisesse rotular. Foi para o morro carioca procurar compositores para formar esse repertório, bem longe do samba de uma nota só que anteriormente a traduzia. Corajosa e única.

 

 62) Ney Matogrosso – Bandido (1976)

Ney Matogrosso veio na contramão: visual inesperado, voz aguda num corpo masculino e uma inteligência musical que arremata tudo isso. Nesses tempos de frescura gratuita, Ney Matogrosso é um exemplo de contestação com conteúdo. Álbum que apresenta a diversidade musical usada por ele até hoje.

63) Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

Loucos, cabeludos e bem longe das regras estabelecidas, essa turma veio para fazer a diferença. Rock, forró, samba, bolero e outros ritmos nesse disco que é sempre o primeiro de muitas listas especializadas.

64) Paralamas do Sucesso – Selvagem ? (1986)

O rock brasileiro dos anos oitenta deixou muitos frutos consumidos até hoje, mas os Paralamas do Sucesso sempre foram os mais corajosos em termos de sonoridade. Quando o segundo disco cheio de baladas e guitarras apontava a fórmula do sucesso, eles trouxeram o reggae e o samba prá confundir a cabeça da galera. E acertaram em cheio. Um disco de consulta. 

65) Paulinho da Viola – Nervos de Aço (1973)

O aristocrata do samba. É único na mistura que faz: samba de raiz e poesia moderna. Uma discografia impecável. Eu escolhi um, mas você pode ir adiante e decidir por todos.

66) Rita Lee – Fruto Proibido (1975)

Houve um tempo em que fazer rock no Brasil era coisa de macho e não dava dinheiro. Quando Deus criou Rita Lee, as coisas mudaram. Gatinha manhosa, poderosa e corajosa, até hoje o Brasil não produziu artista igual. Esse álbum é o símbolo de toda uma geração.

67) Roberto Carlos – Roberto Carlos (1971)

A voz do Brasil. A música do Brasil. O sentimento do Brasil. Não dá para explicar o que somos sem uma canção de Roberto. Fundamental, pessoal e intransferível. É o álbum que tem Detalhes. Preciso dizer mais alguma coisa ?

68) Rosa Passos – Rosa Passos (2006)

A mais perfeita tradução de João Gilberto. Sua voz doce e suas divisões interpretativas fazem dela um orgulho nacional que os japoneses adoram. E nós também. Neste álbum aparece mais como intérprete mas sabe ser também uma compositora genial.

69) Sérgio Sampaio - Tem Que Acontecer (1976)

O poeta marginal que o Brasil insiste em querer esquecer. Sérgio Sampaio cantava o amor e as agruras desse país sempre em carne-viva. Atemporal, importante e genial.

 

 70) Silvia Machete – Bomb of Love (2006)

2 em 1 versão carioca. Uma louca que canta com uma pomba na cabeça e enrola um cigarro enquanto gira num bambolê, já valia contar nessa minha lista. Mas Silvia Machete é melhor que isso: dona de uma voz delicada e um repertório inteligente, ela sabe fazer barulho.

71) Silvia Telles – Amor em Hi -Fi (1960)

Quando o assunto é musa, a bossa nova tem vários nomes. Para mim, um só: Silvinha Telles. Com sua voz delicada, colocou definitivamente todos os clássicos do movimento em meus ouvidos. Sua morte prematura impediu uma discografia mais extensa, mas os que ficaram são definitivos, como este aqui gravado em 1960.

72) Simone – Pedaços (1979)

Antes de mergulhar nas águas perigosas do sucesso popular, Simone foi insuperável e sedutora em todos os sentidos: repertório irretocável, timbre inigualável e uma beleza de não se esquecer. Mate as saudades aqui.

73)Tim Maia – Tim Maia (1970)

Como explicar um gênio ? Tim Maia era um bicho solto. Adorava polemizar, dava trabalho para os íntimos mas de dentro de sua garganta saía música poderosa. Então vale tudo. Nesse álbum estão Primavera e Azul da Cor do Mar.

 

74) Tiê - Sweet Jardim (2009) / Thiago Pethit - Berlim Texas (2010)

Praticamente 2 em 1 . Duas novas promessas que já merecem figurar em qualquer lista fundamental da música brasileira. Thiago leva sua alma masculina para passear ao lado da doçura feminina de Tiê em dois trabalhos sinceros e vibrantes.

75) Vanessa da Mata – Essa Boneca Tem Manual (2006)

Apesar de figurar na lista das grandes cantoras do momento, Vanessa da Mata sabe correr por fora e manter sua personalidade musical intocada. Dona das letras mais inesperadas da nova música pop brasileira, ela arrasta multidões. Este  seu segundo álbum apresenta suas armas.

76) Virginia Rodrigues – Sol Negro (1997)

Dona de um registro operístico impresso num repertório popular, Virginia Rodrigues é uma força que nunca seca. Esse álbum supervisionado por Caetano Veloso traz pérolas do nosso cancioneiro iluminadas por uma voz de altíssima qualidade.

77) Wanderléa – Maravilhosa (1972)

Já cansada do adjetivo “Ternurinha da Jovem Guarda”, Wanderléa com o auxilio luxuoso do produtor Guilherme Araújo e do visionário Nélson Motta, faz um disco tropicalista, lindo, leve e solto. Pontapé inicial de uma discografia conceitual que ela produziu durante os anos 70.

 

 78) Wilson Simonal – Alegria, Alegria !!! (1967)

O homem que teve o Brasil nas mãos no melhor e pior sentido. Como cantor, arrastou multidões, como cidadão, teve o ocaso como companhia. Faça justiça com os próprios ouvidos: redescubra o som fundamental de Simonal. Comece por aqui,nesse disco  que mistura temas infantis com sambas de ontem e a malandragem de sempre.

79) Zezé Motta – Zezé Motta (1978)

“A negra foi obrigada ser recebida como uma grande senhora” como já dizia Jorge Ben na canção título do filme Xica da Silva que projetou Zezé para o mundo. Dona de uma voz poderosa e esbanjando sensualidade, tornou-se inevitável gravar esse disco naquele momento. Um clássico que misturava inéditas de Rita Lee, Luiz Melodia e Gilberto Gil.

80) Zizi Possi – Sobre Todas as Coisas (1991)

Cansada de obedecer a produtores insensíveis e fazer sucesso nas rádios com baladas previsíveis durante os anos oitenta, Zizi Possi reinventa o seu marco zero e vira uma das maiores cantoras do Brasil.




Se Começou, Quem Quer o Fim ?

    Chegou o novo disco do meu poeta romântico preferido. Nando Reis pode ser roqueiro o quanto quiser, aqui em casa é o rei das baladas de amor inabaláveis e seu novo álbum, que tem o titulo minimalista “Sei”, está cheio delas. Verborrágico no melhor sentido, Nando prossegue com suas ideias harmônicas e destrói meu coração com suas palavras ora desoladas ora cheias de esperança sobre esse sentimento que (dizem) move o mundo.

    Nando Reis é um cara do seu tempo. Sua idade avança sem impedi-lo de estar conectado com os assuntos da atualidade. Pode soar como um estudante melancólico na porta da escola implorando carinho ao seu primeiro amor e na faixa seguinte ser o mais indignado dos cidadãos, com questionamentos sociais e políticos totalmente pertinentes e geniais sobre questões desse país que alguém disse que um dia ainda ia cumprir o seu ideal. E talvez esse lado contestador seja o que mais se aproxima de sua primeira raiz musical, uma árvore frondosa chamada Titãs que rendeu extraordinários frutos e que ainda causa sintomas de adoração e admiração por parte de muitos jovens que talvez não estivessem nem em projeto na cabeça de seus pais quando esse grupo cheio de atitude invadiu o Brasil.

    Durante os anos noventa, Nando Reis começou a dispersar no melhor sentido. Suas poesias e canções foram adotadas por Marisa Monte, seu individualismo musical começou a dar fortes sinais até que um dia...Cássia Eller. A dona da voz mais rascante e poderosa da música pop brasileira mostrava, desde o seu surgimento, uma inquietude que batia de frente com os grandes esquemas de gravadora e com os repertórios que queriam lhe impor. E foi assim que Cássia, entre erros e acertos discográficos, encontrou Nando pelo caminho e foram felizes para sempre. Intérprete ideal desse compositor mais-que-perfeito, os dois fizeram história. Com sua partida precoce rumo às estrelas, Nando se viu porta-voz de toda uma legião de adoradores de Cássia e fez bonito, arrastando multidões e mantendo sempre acesa a chama dessa voz que foi (é) sua maior fonte de inspiração. Em seguida, ele percorreu o Brasil jogando o leite brega na cara dos caretas, montando verdadeiros bailões populares, misturando Wando com Rita Lee e fazendo muito sucesso. Durante esse período eu fiquei quietinho no meu canto, ouvindo insistentemente seus álbuns autorais/meus discos de cabeceira: “Infernal”, “A Letra A” e “Sim e Não”. Até que agora, em 2012, finalmente entrou setembro e a boa nova chegou às lojas: Nando Reis e o seu “Sei” tocam incessantemente no meu Ipod e já ouso eleger aqui as minhas favoritas: “Declaração de Amor”, “Coração Vago” e “Ternura e Afeto”, títulos que falam por si e não deixam outra saída a não ser encerrar esse texto como comecei: Nando Reis é o meu poeta romântico preferido. Talvez o último, como diz aquela canção de Lulu.



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