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Ainda Somos os Mesmos e Vivemos

Domingo à noite na televisão brasileira. Num canal um rapaz bonitinho e de moral duvidosa ganha prêmio de um milhão. No outro perguntam por onde anda o cantor Belchior. Isso é o meu Brasil.

Belchior assim como Sérgio Sampaio e tantos outros importantes cantores e compositores, estão desaparecidos já faz muito tempo, Belchior apenas resolveu assumir isso fisicamente sumindo do campo de visão de sua família e amigos, enquanto que Sérgio Sampaio, tristemente, permaneceu de corpo presente até a sua morte tentando em vão que não o esquecessem.

Belchior veio do sertão com uma voz agreste e uma música improvável de se entender no Sul maravilha. Junto com Fagner, ele sofreu todo o tipo de preconceito pessoal e musical até a visionária Elis Regina gravar “Mucuripe” e “Como Nossos Pais” e Vanusa fazer todo o Brasil cantar “Paralelas”

Belchior foi um cronista do seu tempo. Suas letras urbanas viraram porta-voz de toda uma geração sufocada entre a ditadura e a falta de perspectivas num país miserável.

Quando a segunda fornada de cantores e compositores nordestinos como Zé Ramalho, Amelinha e Elba Ramalho chegaram ao sucesso nos anos 80, a obra de Belchior já entrava em declínio nas rádios. E ao contrário de Fagner que pegou caminhos às vezes perigosos para se adaptar ao gosto popular de cada década, Belchior teimou em manter sua dignidade autoral ficando como um quadro na parede da memória do Brasil: importante no passado e ignorado no presente. E foi assim que ele decidiu sumir. E foi assim que ele chegou até o “Fantástico” em pleno horário nobre na poderosa TV Globo. Uma ironia como tantas que já vimos por aqui. Como Collor no poder. Como milionários que não são presos. Como um rapaz latino americano ganhando um milhão de reais no canal concorrente. Isso aqui é um pouquinho de Brasil.




A Vida é Bem Mais Perigosa Que a Morte

Minha televisão fica constantemente ligada no Canal Brasil. Às vezes cometo a loucura de zapear e volto correndo para o conforto do canal 66.

Essa semana foi apresentada uma retrospectiva do cineasta Hector Babenco, diretor longe dos meus preferidos e que eu considero de filmografia irregular. Mas havia “Pixote – A Lei do Mais Fraco” que eu vi ainda muito pequeno e que pouco lembrava, a não ser a polêmica trajetória do ator Fernando Ramos da Silva que acabou em terrível tragédia na vida real e a atriz Marília Pêra encarnando uma alegórica prostituta. Nada mais.

Um colecionador nato de raridades da nossa cultura, deixei gravando e durante uma longa e acidentada viagem essa semana (ler o texto abaixo) dei o play. Um filme de não se esquecer. Como os difíceis anos da ditadura, ironicamente, fizeram bem à nossa cultura . A rigidez desse período somada às precariedades estruturais fizeram filmes clássicos, discos inesquecíveis e livros de eterna consulta em nossas estantes. Uma triste (feliz) constatação.

Hector Babenco naquele ano de 1981, realiza seu filme definitivo sem saber, como revelou no documentário “Pixote In Memoriam” que passou em seguida. Uma conjugação de fatos e coincidências extraordinárias (como encontrar o garoto que encarna o protagonista Pixote) fizeram da película um fenômeno mundial: Marilia Pêra ganhou todos os prêmios, Babenco firmou-se definitivamente como um diretor de prestígio tendo feito mais uma dezena de filmes (inclusive o“O Beijo da Mulher Aranha” e “Ironweed” com Meryl Streep e Jack Nicholson) apesar de para mim, ter perdido a mão forte que resultou em “Pixote”. Um forte exemplo disso é “Carandiru” que tocava na mesma ferida de forma asséptica e com um padrão global de qualidade que não me emocionou em nada, resultando na minha saída do cinema bem antes do final. Se você não viu “Pixote” ligue já para o Canal Brasil porque misteriosamente o filme não existe em DVD, mas vale a pena o sacrifício. Nem milhares de filme em sua locadora mais próxima valerão a experiência de rever esse orgulho nacional.

O escritor Caio Fernando Abreu foi a Clarice Lispector da minha geração. Seu jeito confessional de contar dores e angústias tomou conta da cabeça de todos os adolescentes dos anos 80 como eu, cheios de dúvidas existencialistas .

Caio era um escritor dark: sua literatura não era um doce de leite para se comer antes de dormir. Falava de sexo com o vigor de um suicida e do amor como se não houvesse amanhã. Seu livro mais comentado e mais lido foi “Morangos Mofados”, uma bíblia para seus seguidores. Agora para quem quer saber um pouco mais de Caio (já que seus livros são praticamente auto-biográficos) sua amiga-irmã Paula Dip lança “Para Sempre Teu, Caio F”, uma caixa de recordações, onde cartas e depoimentos de pessoas próximas fazem o inventário definitivo do escritor. Tudo em carne viva como ele escolheu viver. Uma montanha russa de sentimentos que serve de escola para a turma de hoje que assiste a tudo em cima do muro e escolhe viver cercada de luxos e banalidades. Caio Fernando queria mais da vida e pagou um preço alto por isso e não se arrependeu. Viveu. E morreu cedo demais. Ou quem sabe na hora certa. A superficialidade de agora com certeza não interessaria a uma pessoa como ele que sempre quis mais. Muito mais.

E vou pegar um avião em Congonhas. Na hora do check-in cadê meus documentos ? Mexo e remexo na bolsa, nada consta. E começa a novela: fazer um boletim de ocorrência para poder embarcar e a cabeça não pára de rodar: onde foi parar meu RG ?. Chego em São Paulo de volta: vou até os “achados e perdidos” do aeroporto e nada. Volto para a casa e deixo tudo de pernas pro ar e nada. Não tem jeito: a solução é enfrentar o Poupatempo da Sé no centro nervoso de São Paulo. E pasmem, tudo funciona, serviço impecável. E dá-lhe fichas para preencher e boletos para pagar. Na saída respiro fundo: e se eu voltasse de metrô ? E pasmem, tudo funciona, o metrô de São Paulo é um orgulho nacional. Volto para casa e vou prá debaixo das cobertas para esquecer tal pesadelo que é perder documentos. Acordo com o porteiro com todos os dedos na minha campainha: o motorista do táxi tinha achado tudo, passou no banco onde eu tinha conta, pegou meu endereço e bateu na minha porta. Nem tudo está perdido. E o mundo não se acabou.

 




Entre Tapas e Beijos

    Todo o ano é a mesma coisa. Insistem em premiar a nossa música brasileira.

    Tem prêmio que quer fazer justiça com as próprias mãos e entrega troféu para uma turma da antiga que o Brasil (felizmente ou infelizmente) já esqueceu, deixando todos na platéia sem entender nada. Tem prêmio para uma gente jovem reunida que deixa a turma com mais de 30 em casa se perguntando a cada resultado: “quem é esse ?”. Resumindo: não tem prêmio nenhum. Essa é a sensação que eu tenho cada vez que vejo esses eventos de divulgação de celebridades. Sim, porque é para isso que eles servem. Música que é bom nada.

   Somos um país pluralista em todos os sentidos. Tendências e posições no ranking não nos definem. Somos um pobre país de terceira categoria e no entanto o mundo todo nos conhece. E temos nossas particularidades: Caetano Veloso é um compositor baiano de Santo Amaro que faz turnê mundial todo o ano. Bibi Ferreira é uma grande atriz brasileira que ganhou o mundo interpretando Edith Piaf. Uma cantora em cima de um trio elétrico no calor do verão baiano aparece vestida de Gucci e Prada. Deliciosas confusões que fazem daqui o inominável. Por isso tanta dúvida na hora de premiar a nossa música brasileira, como, por exemplo, indicar Zé Renato e Maria Alcina para uma mesma categoria, ou cogitar o nome de Marcelo D2 para melhor cantor. E a minha cama é que sofre com isso, como aconteceu nessa semana, em que antes de dormir, fui assaltado pela reprise de um desses prêmios que além da confusão musical ainda parecia um espetáculo da emissora concorrente, copiando layouts e formatos de apresentação de outro canal. Eu dou soco no travesseiro, jogo o lençol no chão, porque não agüento tanta gente ruim com cara de definitivo, tanto prêmio em vão para tanta gente inútil que não mexe uma peça no nosso tabuleiro musical. E o meu twitter bomba: eu grito de cá e o povo responde de lá. Tem fã que me xinga. Tem quem concorde com os meus comentários, é uma esculhambação democrática. Como o Brasil. Assim era na época dos festivais da canção. Todo mundo estava mais preocupado em vaiar o concorrente do que aplaudir a sua música favorita. A gente não se leva a sério mesmo e tudo vira motivo de alegria e confusão, porque temos sentimentos misturados. Passamos muito sufoco e ao contrario do mundo lá fora que desabafa em forma de bombas e guerras, nós temos um fina ironia que sempre debocha da dor. O que nos faz chorar, amanhã estará nos botequins em forma de piada. Por isso esqueçam esses prêmios. Deixem a MPB em paz. Deixem os falsos emos fazerem rock brasileiro Deixa o axé usar grife importada. Deixa eu dizer o que penso dessa vida. Preciso demais desabafar.




O Tempo Não Pára e No Entanto Ele Nunca Envelhece

   Eu sei que já faz alguns dias que a palestra de Maria Bethânia na Casa do Saber aconteceu. Mas o que se passou naqueles cinqüenta minutos me fez pensar muito antes de começar esse texto.

   Por que Bethânia mantém o essencial há mais de quarenta anos e sempre é uma novidade ? Por que tanta gente sobe e desce no trem das canções e ela permanece no comando da viagem ? Tudo isso passou pela minha cabeça naquele curto espaço de tempo em que, sentado ao lado de oitenta pessoas numa minúscula sala de aula, assisti Bethânia encantar, cantar e declamar a nossa poesia que, infelizmente, não se aprende mais na escola.

   Bethânia lamenta nossa pobreza cultural. Aplaude nossos mestres da literatura e da canção popular. Inventa um palco e um cenário num lugar improvável para mostrar que sua vitalidade aos 63 anos causa inveja aos menores de idade do Brasil. Seu irmão Caetano Veloso, as atrizes Renata Sorrah e Regina Casé, a diretora Bia Lessa e eu seu anônimo e eterno seguidor, somos todos iguais nessa noite: estamos ali para ver uma artista que é pedra de rumo em nossa vidas.

Bethânia chega mansa e reverente com um caderno repleto de anotações e faz a casualidade de um bate-papo virar um pronunciamento oficial sobre a nossa historia cultural. Mistura trechos de canções que traduzem em som as palavras de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e seus heterônimos e até um improvável Fausto Fawcett, com a viola caipira de Jaime Além que está sentado ao pé de sua musa num sarau desprovido de pretensões e formalidades.

    Penso durante esse tempo em que ela está ali na minha frente, que sua vida particular nunca foi informada ao mundo. De Bethânia só se sabe no palco. De Bethânia não se quer saber nada mais do que ela representa em cena. Ela nos ensinou assim Uma professora também de ética e respeito. O doce mistério de sua vida também é arte que ela cuida de perto.

    E assim como entrou, Bethânia passa por entre seus “alunos” e da porta ouvimos seu grito de guerra: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz...”. Na saída, cada um pega o seu táxi em silêncio, como convém ao vermos um deus ou um poeta, e voltamos para a casa repletos de arte e saciados de sua presença. A beleza de sermos um eterno aprendiz de Maria Bethânia.




Cada Vez Que Eu Fujo, Eu Me Aproximo Mais

    Esse texto não é sobre o disco "Nove" de Ana Carolina. Esse texto é sobre a força e o carisma de um artista, independente do ser crítico ou do gosto de cada um. 

    Cantora aqui em casa chega cedo. Até mesmo antes de gravar noticias chegam ao meu ouvido e eu pego o primeiro trem bala para ir ao encontro de uma delas. As vezes é uma rota de colisão: um acidente de percurso. As vezes  é a glória do saber querer, um explode coração. E Ana Carolina foi assim: naquele ano seu primeiro disco assombrou a todos e iluminou a minha casa. Era um disco irregular, apesar de hoje os críticos o considerarem um clássico e ficarem eternamente comparando com os posteriores. Ali já estavam sua voz potente, as composiçoes próprias de estilo vingativo e um visual vermelho em todos os sentidos. Arrebatou o Brasil imediatamente. Atravessei a sua vida no segundo disco quando já estava totalmente abduzido pelo seu canto. 

    Mas esse texto nao é sobre talento. É um texto sobre a amizade. Sobre admiração mútua. Essa semana fui para o Rio de Janeiro e escolhi sua casa como abrigo. Ali passamos horas indescritiveis de alegria e emoção. Ouvimos músicas (nunca as nossas), rimos madrugadas inteiras, discutimos arte e amor  como dois irmãos que somos. Dias inesquecíveis onde matamos nossa saudade. 

   Eu não uso linhas telefônicas com Ana. Tampouco ela me procura com frequência. Não existem emails.  Skype uma vez e foi com a câmera desligada (eu juro ! ). Mas somos ligados num acordo intimo. Como a mão direita e esquerda.    

   Ana Carolina é uma artista de sucesso . E esse bem suceder ela divide com todos ao seu redor. Que bom que eu estou ali. Numa platéia espremido na turba enfurecida ou no sossego do seu lar. Coisa boa é poder se estar ao lado de gente vitoriosa. Levanta o astral e faz bem a saûde. 




Uma Dama Indigna

   Quinta feira à noite. A rua Augusta ferve de prostitutas, buzinas e carros. O lado underground de São Paulo que não morre jamais. Ali, dentro de um escuro antro de jovens chamado Studio SP, uma musa da antiga Lira Paulistana mantém-se de pé, cheia de integridade e sofisticação. Seu nome é Cida Moreira.

   Sentados em algumas mesas, eu avisto contemporâneos de sua geração e pelas arquibancadas uma turma que estava bem longe de nascer quando seu canto rascante invadiu o Brasil. Não importa: para eles Cida é a rainha daquele lugar. Todos aplaudem freneticamente e até invadem o palco para beijar a sua mão, como é o caso de Hélio Flanders, isso mesmo, o vocalista da banda Vanguart, que esta ali para render tributo a loucura imutável de Cida Moreira.

    Ela pode tudo e sabe disso: atravessa o cancioneiro mundial e brasileiro com a propriedade do definitivo. Recria o Vapor Barato de Waly Salomão com a renovação necessária que os modernos de plantão jamais atingirão. Arrasta as correntes da Canção Desnaturada de Chico Buarque, ilumina um antigo Stevie Wonder, fica bêbada e incoveniente para reler Amy Winehouse, lava a alma de Janis Joplin ao som de Summertime e alimenta seu alter-ego Tom Waits com um imponente piano de cauda que nessa noite aparece disfarçado de teclado mas que não interfere em nada na força de sua interpretação.

    Cida Moreira está em casa ali: nunca quis a segurança das velhas divas, ainda quer o risco das novas platéias, corre o risco da desatenção, mas nunca o da estagnação. Comporta-se em cena como uma garota rebelde que desconhece sua verdadeira idade. Por isso seu canto ainda fere ouvidos desatentos. Por isso sua presença em cena é alimento vivo para quem quer viver de arte e procura inspiração. Cida é um livro para esses curiosos. Procure por ela nas boas casas do ramo. Ou nas piores. A boa música não escolhe lugar.

 




Carta Aberta a Rafael Cortez

Meu Caro Rafael,

Realmente a gente não se conhece e escrever carta é coisa da antiga. Mas só você vai entender os motivos desse texto, porque eu sei que no peito desse humorista bate uma Nara Leão.

Essa semana só deu ela aqui em casa. Na área da literatura, a já definitiva biografia de Cássio Cavalcante “Nara Leão - A Musa dos Trópicos”. Na televisão abri meus arquivos e assisti todos os clipes e especiais que ela fez para a televisão. Mas foi o meu Ipod descuidado no modo shuffle que deu a partida nisso tudo. Depois do aparelinho passar duas vezes pela discografia de Nara, eu pressenti os sinais e me debrucei (novamente) profundamente em sua obra. É Rafael, você tem razão: Nara Leão é a maior . Sua inteligência musical, seu olhar sobre o Brasil, suas descobertas de novos compositores são de grande valia para essa enxurrada de gente nova (?) que quer ocupar novos tronos na academia da música popular. Nara nunca quis o poder. Queria cantar e discutir um país através de suas escolhas musicais. Pensou em parar e parou. Continuou quando achou necessário seu discurso. Parou de novo. E nessas voltas sempre foi brilhante, inesperada, atual e necessária.

Quem hoje seria musa de um movimento e ao gravar seu primeiro disco escolheria outro caminho? A pré-musa da bossa nova (sim, porque nem nome esse estilo tinha ainda e Nara já estava nele) pressentiu o cansaço e o desgaste do banquinho e violão e foi para o morro buscar novos compositores, causando polêmica que ela respondeu a altura. Sim, porque Nara não levava desaforo para casa. Arranhava com fúria a sua imagem de boa menina se fosse preciso. E os militares ficaram de olho nela. Nara não se intimidou. Sua discografia no período da ditadura atestam isso. Ao mesmo tempo acendeu uma vela no breu ao abraçar o Tropicalismo de Caetano e Gil e com seu jeito tímido ajudou na afirmação desse movimento nada discreto e corajoso.

E os anos 70, Rafael ? Nara lança um disco infantil anos-luz de Xuxas e Partimpins e grava um tributo a Roberto Carlos quinze anos antes de Maria Bethânia vender um milhão.

E os anos 80 ? O rock comendo solto no Brasil e ela cantando Fagner, João Donato e Martinho da Vila. Naquele momento essas escolhas poderiam soar desconexas, mas agora ao abrir as duas belas caixas (obra de arte) que contém toda a sua discografia, todas as suas profecias se confirmaram.

Ao fazer agora meu terceiro disco de remixes com quatorze cantoras brasileiras, eu não poderia deixar Nara de fora do meu projeto. Respirei fundo e mandei um email para sua filha Isabel Diegues falando de minhas (más ?) intenções. Fui autorizado e sua gravação de “Mal Me Quer” virou música para dançar. Motivo de orgulho para mim ousar tocar em sua pequena voz de ouro.

Então é isso, Rafael. Volto para as pistas e você para o seu programa. E Nara Leão na cabeça. E no coração.

 




Cantar e Compor Não é A Mesma Coisa

    Nessa balaiada de novas cantoras que o mercado tá soltando e o MySpace tá bombando, noventa por cento delas querem ser compositoras. Todas sofríveis. Um dia conversando com Marina Lima ela me disse que não acredita em gente que faz trinta músicas por mês. Uma boa canção demora um tempo para nascer, isso se você tiver realmente o dom, porque hoje em dia de olho nos direitos autorais, todas querem cantar e compor achando que esses dois milagres da natureza nascem para qualquer um. Quero evitar nomes aqui para não ferir leitores tietes dessas equivocadas mulheres/cantoras/compositoras mas só nesse mês saíram três discos femininos ruins de doer. Todas envoltas em promessas de definitivas e poderosas, mas no fundo pobres copiadoras de formatos vencedores ou já gastos. Todas querem ser Marisa, Adriana, Cássia, Ana, Vanessa e quem mais tiver dado certo. Todas falando de amor da forma mais previsível e desgastada possível, usando de falsa simplicidade, de arranjos “cool” e com cara de desencanada, mas o que está por trás é muita ambição e clonagem. Como diria Caetano Veloso “Por que será que fazem sempre tantas canções de amor ?”, é muito ciúme, muita queixa, muito ai, muita saudade, muito coração, abusando de um santo nome em vão. Que saudade das grandes intérpretes brasileiras: Elis Regina nunca quis ser compositora. Gal Costa imortalizou grandes canções. Maria Bethânia mantém até hoje um repertório irretocável, todas elas sem precisar pegar na caneta da composição. Essas meninas de hoje precisam aprender a só ser. Uma cara bonitinha ou uma atitude masculina num corpo feminino não fazem o milagre da música acontecer. Cantar é mais do que sonhar. É ter o coração daquilo.




Velha Roupa Colorida

 

A decretada falência das gravadoras começam a render bons frutos para a velha guarda da MPB: João Bosco lança um grande disco de inéditas, Erasmo Carlos volta para o trono do Rock’n’Roll e a paulista Célia promete oxigênio em seu novo álbum. Então viva a decadência das multinacionais ! Ninguém vende mais, ninguém fica rico com música, então vamos fazer o que a gente quiser !

    João Bosco, como a maioria de seus contemporâneos, viu os anos noventa sob a ótica das regravações e discos ao vivo. Seus clássicos apareceram exaustivamente em regravações desnecessárias. E dá-lhe participações especiais de amigos novos e antigos para trazer novidade nenhuma. Com o inicio da brilhante parceria com seu filho Francisco Bosco (num tempo de estio de seu parceiro mais constante Aldir Blanc) as coisas começaram a melhorar, mas sempre aparecia um projeto “ao vivo”, um “acústico” que trazia de volta a sua carreira para a estagnação. Agora com seu novo álbum Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão, João retoma com vigor sua obra de onde parou. Um disco feito sem pressa, com sua voz de veludo em tom sussurrante, seu violão que vale por mil orquestras e as parcerias de ouro que incluem o já citado Francisco Bosco, Carlos Rennó e a volta daquele que nunca foi: Aldir Blanc. Um motivo de orgulho em sua discografia. Um disco que já nasce clássico.

 

   Erasmo Carlos sempre foi mais moderno e interessante que seu parceiro Roberto. O nosso Rei tem outros motivos para viver a glória merecida, mas sempre foi de autoria de Erasmo os momentos em que a discografia de Roberto mostrou alguma novidade ou sinalizou alguma virada. Porque Erasmo é naturalmente mais inquieto e menos preso a superstições e compromissos de imagem. Nunca quis o que não fosse seu: construiu uma discografia de peso sem olhar para o que fazia o “amigo de fé”. Uma obra de ouro. E as gravadoras nunca souberam direito o que fazer com ele: davam chão para caminhar alternando com anos de geladeira. O mundo indecifrável e fechado de Roberto fez com que Erasmo fosse ídolo da turma mais jovem da música brasileira, e ele nunca disse não: gravou com todos. Deu canções inéditas para muitos. Agora sua discografia renasce novamente com o álbum Rock’N”Roll que não define mudanças. Confirma o que ela já faz há muito tempo: rock brasileiro da melhor qualidade. Suas letras ingênuas fazem dele um eterno garotão da Tijuca. O tempo não pára e no entanto Erasmo nunca envelhece.

 

   Célia surgiu no início dos anos 70 no programa do Flávio Cavalcanti. Para desavisados eu devo estar falando em outra língua. Quem é Célia ? Quem é Flavio Cavalcanti ? Vai no Google ou continua lendo aqui.

    Sempre foi no Rio de Janeiro que os tambores da arte bateram mais alto. Atores e cantores de grande expressão escolheram ali para viver, as grandes gravadoras se intalaram na cidade, e as outras grandes capitais ficaram soterradas por essa máfia que se instaurou. Apesar dos grandes festivais e o Tropicalismo terem escolhido São Paulo como ponto de partida, pouco se fala disso hoje em dia. Nos anos oitenta o rock brasileiro teve mais consistência na Paulicéia Desvairada com Julio Barroso, Titãs e a Lira Paulistana de Arrigo Barnabé, mas na hora das cartas na mesa só se fala da música jovem feita no Rio de Janeiro naquele momento. O compositor paulista ficou na mágoa e os cantores caíram no esquecimento. Chegando em São Paulo procurei por esses artistas que já habitavam o meu cubículo em Copacabana: Ná Ozzetti, Cida Moreira, Eduardo Gudin. E anos mais tarde, quando lancei meu segundo disco de remixes, chamei a paulistana Célia para dar uma canja nos shows de lançamento. E só deu ela no palco. Os mais jovens me perguntavam: "who’s that girl ?" e os mais velhos assistiam a velha chama do passado se acender novamente. Uma grande voz que parou no tempo por descuido de nossa memória. Agora Célia prepara disco novo. Numa tarde em seu apartamento no Morumbi abri meu baú e enchi sua cabeça de novos sonhos (Zeca Baleiro, Adriana Calcanhotto e Zélia Duncan) e um passado de glória sempre esquecido (Benito Di Paula). Agora é esperar pelos novos ventos que com certeza irão soprar no céu da música de São Paulo.




O Segundo Céu

   O segundo álbum de um artista é um karma. Do bem ou do mal. Pode mudar os ventos da critica, que outrora foi do contra e agora está a favor, pode atrair desavisados de primeira viagem e que agora estão mais atentos, mas também pode causar tamanha decepção e vergonha em quem aplaudiu de forma precipitada logo no início, que uma terceira chance fica desde já descartada. Deixando essa suposta tese de lado, vamos aos fatos: a cantora Céu está lançando seu segundo álbum aqui no Brasil e no mundo que também a consagrou em seu primeiro trabalho.

   Papo de cantora nova chega rápido aos meus ouvidos: quem me conhece adora me provocar com vozes que eu ainda não conheço, e eu sempre caio de gaiato nesse navio. Às vezes os meus amigos estão certos, às vezes muito errados, vítimas de euforias passageiras. Assim foi com a Céu: os rumores de seu canto chegaram cedo aqui em casa em forma de exageros: todos diziam que ela iria revolucionar quando chegasse ao mercado. E foi assim que numa noite fui até um pequeno bar na Vila Madalena aqui em São Paulo para assistir ao tal fenômeno. Fiquei frio. Num pequeno palco uma bela menina de ar blasé e falsamente desencanado, pouco me espantou. No final fui arrastado até ela que mal me disse um “oi”. Tudo bem, eu pensei. Mais uma que já vai passar. Logo em seguida fui tocar em Paris e como sempre faço, corri para a loja mais próxima para comprar todos os discos e vídeos que coubessem no limite do meu cartão de crédito. E só dava ela por lá: pôster na parede, música tocando alto, show programado para aquele mês, Céu era um surto brasileiro no coração dos franceses. Fiquei tão excitado que comprei vários por saber que a distribuição por aqui ainda era incerta. Cheguei no hotel e descarreguei no meu Ipod. Apesar, de no geral, achar as letras fracas,a sonoridade era quente e inédita para mim, e acabou sendo a trilha dessa minha viagem. Depois houve o grande estouro na mídia brasileira e virou chique nas rodas de música dizer que a cantora Céu era o máximo. E ela não quis tanto confete. Escondeu-se em São Paulo, mesmo tendo uma extensa agenda de shows, descartou o padrão globo de qualidade, e no geral deu as costas para o mainstream e a super exposição. Logo em seguida vieram mais 5.450 cantoras ambiciosas dispostas a tudo pela fama e Céu caiu no esquecimento das turminhas. Ainda bem. Sucesso é um senhor perigoso que pede respeito, já dizia Bethânia.

    Agora seu segundo disco está aqui na minha mão. Não há nenhuma ruptura com o primeiro. Não foram escolhidos nomes diferentes na ficha técnica para causar espanto. Céu quer prosseguir e não gerar expectativas. Foi emocionante ouvir de novo seu canto íntegro, depois de tantas cantoras que chegaram e já passaram desde seu surgimento. Foi motivo de orgulho constatar sua inteligência ao controlar sua carreira longe das pressas que geram os equívocos passageiros. Não esperem de mim destaque para esta ou aquela faixa. Ouçam Vagarosa por inteiro. Saboreiem os acordes. Sintam cada canção. O segundo álbum de Céu veio para realinhar as órbitas dos planetas



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