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O Amor Bateu na Porta

    O amor passou aqui em casa essa semana. Deixou sua marca forte e fugiu.

    Tem gente que não ama. Tem gente que é feliz assim. Eu suponho ser um desses. São tantos livros pra ler, tantos discos pra ouvir e filmes pra assistir que sempre me esqueço de alimentar a idéia de ter esse item considerado fundamental na minha dispensa. E vivo bem: sinto fome nas horas certas, durmo bem e sou concentrado no meu trabalho. Sim, porque amar é entrar num labirinto de emoções, perder o chão que outrora pisamos com firmeza. Um eterno canto de sereia que te leva para o alto-mar sem proteção. E não adianta fugir: quando ele bate na minha porta sempre deixo entrar. É uma troca de ar num lugar outrora mofado e sem luz. Eu me debato, me protejo mas no fim corro pro abraço. É como acordar diariamente e sentar numa montanha russa de sentimentos. Mesmo sofrendo todo o tipo de calvário que inclui ansiedade, ciúme e depressão prefiro me arriscar do que viver em preto em branco. Mesmo que esse amor dure 24 horas, uma semana, um mês ou nenhum dia. Eu fico mais bonito, mais esperto, e todo mundo que passa por mim tenta decifrar essa luz que cega os mais desavisados. Porque quando o amor chega é reveillon. Quando parte é funeral. Me encontro agora nessa fase. Jogo flores num caixão de esquecimentos. Aquela playlist do Ipod que embalou os melhores momentos, agora vira um rosário de canções tristes e sem dedicatória. Aquela cantora que parecia ser só de nós dois, volta a ser de todo mundo.

    Mesmo tendo consciência do fim de todas as coisas, ver um amor acabar é padecer no paraíso de ser só: não machuca porque não fere, não tem contra-indicações porque não cura, um eterno céu azul numa cidade que não tem praia. Nesse estágio, quando um amigo liga desesperado pedindo colo por causa de um fim de caso você se sente um super-homem: dá conselhos como ninguém, mostra-se sadio e potente, sabendo estar causando inveja naquele ser tão fragilizado. E dá-lhe frases de efeito: “ele não te merece”, “parte prá outra”, “já vai tarde”. Mas quando essas verdades aparecem em nossa mesa, parece ácido jogado no rosto. Queremos fugir da constatação de que caímos novamente na doce cilada comum a todos: o amor.

   Quando dou o primeiro beijo no ser amado não penso em mais nada: o passado deixa de ter importância e o futuro é um túnel que eu não deixo o carro da minha vida entrar. Importa apenas o agora. E não desperdiço nada: sou o diretor do meu próprio filme, invento um roteiro onde tudo dá certo e tudo será inesquecível. Podendo ser um longa de 3 horas ou um curta de 15 minutos. Sentir alguém do lado, um corpo pesando sobre o seu, uma língua no céu da sua boca é se encontrar com Deus seja qual for a sua religião. É subir aos céus sem rede de proteção. Tudo é lucro. E ter a consciência de que todo o amor acaba, aqui em casa funciona ao contrário: quando todos fogem por esse motivo e eu me aproximo mais. Porque amar é perder-se nas camas da ilusão, nos braços dos que não te pertencem, uma vingança dos deuses para quem se acha dono de seu destino.




Sinceramente Teu

    Bem me quer. Mal me quer. Na eterna ciranda do desejo escolho o positivo e começo pelas qualidades que despertaram o meu interesse pelos dois novos álbuns de Maria Bethânia.

    Desde Brasileirinho, sua discografia tem mostrado predileção por temas especias. Foi assim com as águas e agora com o amor e as crenças. Projetos cuidados de perto com sensibilidade e sofisticação. E a palavra sempre foi o motivo maior de sua música. Quando seu canto não alcançava a segurança que hoje desfruta, era com o teatro dos gestos e da poesia que sua obra encontrava a força necessária. E Bethânia não decepciona nesse quesito em seu novo trabalho. Apesar de alguns compositores parecerem forçar algumas rimas para se encaixarem no desejo da intérprete (e serem brindados com sua escolha), no geral as composições estão acima da média. Outro dado positivo é que Bethânia está em seu melhor momento como cantora, encontrando os agudos que outrora não habitavam seu canto e confirmando os graves habituais de forma cada vez mais especial. Consciente disso, ela abusa das introduções a capela, começando quase todas as faixas do disco dessa maneira.

   Fora isso, surge o meu desinteresse. O violão previsivel e o piano de sempre mostram claros sinais de desgaste nos arranjos parecendo o tempo em que Bethânia foi apoiada pelas grandes orquestras do maestro Perinho Albuquerque e precisou se reinventar no album Ciclo, retornando ao formato acústico. Algumas canções de Tua e Encanteria já nascem com cara de velhas conhecidas por causa de algumas soluções musicais de Jaime Além, obscurecendo o mérito de várias letras interessantes e bem construidas.

   Os dois projetos de capa tambem resultam em pouca novidade. Mostram fotos já conhecidas por seus seguidores fiéis pelo fato de terem sido material de divulgação de álbuns anteriores e a solução gráfica não resulta em inesperada beleza.

    No entanto o eterno prazer de ouvir Maria Bethânia e aplaudir suas escolhas estão de volta. Falta apenas uma energia maior e transformadora, podendo os motivos serem a idade fisica ou simplesmente suas convicções artisticas e pessoais.

Ha pouco tempo atrás recebi do seu fã-clube o video de um show exibido pela televisão portuguesa nos anos oitenta e passei dias me alimentando da vitalidade e loucura de Bethânia naquela época. Senti falta da precariedade vocal fazia sua presença valer mais que qualquer cantora perfeita. "Um castelo feito na lama" como diz uma das melhores faixas do disco Tua. Um tempo que decididamente acabou. Uma pena para quem a conheceu ali. Um milagre para quem a considera hoje perto da perfeição. A minha paixão vive entre essa serenidade do presente e a ausência do desatino. Entre elas a bruta flor do querer: Maria Bethânia.




Quero Acordar na Cidade que Nunca Dorme

    Eu sempre sonho a mesma coisa: que estou em Nova York e sou feliz. E todo o ano eu vejo isso acontecer. De todas as cidades que vi pelo mundo, decididamente foi aqui que deixei meu coração. E na chegada é sempre a mesma rotina: tenso na imigração, aliviado no metrô e chorando de emoção ao sair da estação e avistar o primeiro prédio.

    Não tem jeito. A primeira vez a gente nunca esquece. E foi o estilista Fause Haten que me trouxe para cá em seu primeiro desfile na Fashion Week com uma trilha sonora assinada por mim. Na chegada eu jâ tinha certeza que seria para sempre. Como um mineiro que olha o mar pela primeira vez, do alto do Empire State eu tive a visão do definitivo .

    A eterna nostalgia que tenho pelos anos setenta e o que não consegui viver nessa década, se realiza aqui: tenho a a sensação que vou pegar um taxi com o Robert de Niro de motorista, visitar Andy Warhol na fábrica prateada e depois dançar com Liza Minelli em plena Times Square.

   Em Nova York ja perdi muitos amigos. Prometo sempre que vou levâ-los aos meus lugares escondidos e prediletos mas quando ponho os pés na cidade jâ sumi. Não consigo compartilhar essa emoção tão grande. Por isso aviso aos navegantes que me lêem aqui: não esperem me encontrar pela cidade e marcar um jantarzinho ou passear pelo Central Park, eu fujo de tudo e todos para viver o meu sonho como um errante egoista pelas ruas que eu adoro. Chego até a falar sozinho muitas vezes na ansiedade de compartilhar o que vejo e ouço, mas não dou o braço a torcer. Só abro uma excecão para dois casais de amigos brasileiros que escolheram Nova York para morar e vivem felizes para sempre.

   Luciana e Henrique são o que eu chamo de casal do futuro: ela recicla lixo e ele vai para o trabalho de bicicleta. Falam baixo, recebem como ninguém e são tão educados que me dão vergonha do que aprendi em casa. Naquele apartamento ao lado da Estátua da Liberdade eu faço o meu quartel general de emoções; tenho uma bicicleta gentilmente cedida por eles, e um quarto que eu morro de ciúmes e defendo dos outros hóspedes como um cão de guarda feroz. E ao final de cada dia chego em casa tão excitado que nem reparo os ouvidos cansados de meus anfitriões de tantos adjetivos e superlativos ao contar minhas aventuras pela cidade

    João Paulo e Bela são o que eu chamo de casal seguro e natural. Ele trabalha numa loja de roupas orgânicas e ela faz comida macrobiótica. Com eles finjo não gostar de junk food e me jogo em sopas cheias de legumes e bolos de laranja sem ovo e açúcar. Dessa vitoriosa parceria nasceu uma filha linda e tranquila que se joga nos meus braços e de quem mais sorrir para ela. Uma doce infiel.

    Foi em Nova York também que ouvi pela primeira vez um som produzido por mim na boca do povo. Os americanos adoram a nossa música e ficaram encantados com o meu primeiro disco. Em pleno Soho pude constatar isso numa loja que tinha como som "Não deixe o samba morrer" de Alcione remixado por mim. E foi também aqui que fiz minha primeira grande apresentação no Brazil Foundation, jantar de gala beneficente anual em que sou o DJ todo o ano. Uma grande festa brasileira no coração da cidade que aconteceu ontem a noite.

    Agora preciso parar de escrever, vou pegar minha bicicleta, colocar meu fone de ouvido e atravessar a ponte do Brooklin. Vou ser feliz e já volto




O Amor e o Poder

    A moda no Brasil existe porque um dia alguém acreditou que isso fosse possível. Esse alguém se chama Paulo Borges, um visionário louco que no meio dos anos noventa fez com que as palavras estilista, stylist, maquiador, fotógrafo e até mesmo DJ virassem sinônimo de mercado de trabalho nesse país. Eu sou amigo desse brasileiro. Eu trabalho para esse grande homem.

    Quando eu cheguei em São Paulo em 1993 eu não entendia nada, tocava nos clubes e tentava aprender a amar a cidade que hoje é o meu território preferido. Acuado e cheio de dúvidas, tinha como passaporte apenas o meu talento para a música e meu carisma para agregar pessoas ao meu redor. E foi assim, me vendo numa uma festa tocando música brasileira, que Paulo Borges me levou para junto de seu sonho de fazer um calendário oficial de moda no Brasil. E se assuntos como educação, política social e financeira não são levados a sério nesse país, você pode imaginar o que era, naquela época, alguém escolher viver de corte e costura, querer respeito e ter algum espaço.

A moda no Brasil, até então, sempre tinha estado perto da caricatura : Denner rivalizando com Clodovil, modelos como Monique Evans, Luiza Brunet e Xuxa vendendo nudez nas revistas masculinas e Cristina Franco fazendo comentários alegóricos num noticiário de TV. O eterno país da piada. Paulo Borges nunca acreditou nisso. Moda era tão importante para ele, que mudou o rumo de sua vida, inclinada inicialmente para a carreira de ator. Começou como assistente de uma figura fantasiosa e cheia de lendas, a produtora de moda Regina Guerreiro que dividia com ele a mesma paixão e o mesmo rigor de quem acredita que, com seriedade e profissionalismo, aqui pode não ser o terceiro mundo.

    Num programa da MTV foi que avistei pela primeira vez a figura de Paulo Borges falando de um projeto chamado Phytoervas Fashion. Foi o ponto de partida: só se falava nisso na imprensa e o povo de São Paulo, sedento de novidades, recebeu o projeto de braços abertos. Até que chegou o meu dia. Uma amiga e dois convites me levaram até um galpão em Pinheiros onde o futuro da moda fincava seus primeiros alicerces. Ali pela primeira vez assisti a um desfile. Era de um estilista iniciante chamado Alexandre Herchcovitch, que misturava chifres, travestis e crucifixos em sua forte exibição. Coisa de não se esquecer. Claro que, como tudo que vem com a força do definitivo e do inesperado, uma violenta briga de egos entre patrocinador e o já centralizador Paulo levou o projeto, depois de algumas edições, para o chão. E foi aí que meu caminho cruzou com o dele. Quando a mídia apostava na diluição do sonho, quando todos que estavam ao seu lado escolheram o desprezo ou o silêncio, Paulo emergiu com a fúria dos que sobrevivem às grandes tormentas e, em menos de seis meses, o Brasil assistia ao primeiro São Paulo Fashion Week. Foi uma loucura geral. Como sentar na primeira fila e falar do que não se sabe ? Como editar um desfile atrás do outro ? Como fazer 12 trilhas para 12 estilistas mais perdidos que eu ? Quando minhas pernas começaram a tremer, a mão firme de Paulo e seu olhar confiante me seguraram. E como um filho obediente a seu pai permaneço até hoje: não existe chamado seu que eu não atenda. O medo não me acompanha quando sua ordem me alcança. Paulo é fiel e não põe o talento de quem atende suas demandas, em dúvida. Suas certezas de vida acompanham suas decisões.

    Tudo que escrevi acima é porque acabo de ver uma entrevista sua para Joyce Pascowitch e assisto ao seu pequenino sonho de outrora encontrar definitivamente o merecido respeito e orgulho de todos. Sua serenidade e inteligência ao descrever novas idéias para a menina de seus olhos, a moda brasileira, me comovem. Minha emoção veio para esse texto aqui. Minha gratidão vai para o telefone que agora pego e começo a discar o seu número. Paulo Borges é brasileiro. Um grande homem brasileiro.




Para Ler e Aplaudir

   Estou sempre ávido por cultura. Percorro livrarias, entro em sebos de discos, empilho filmes em estantes. Por isso nunca me sinto só. Por isso a febre incessante da nossa raça por romance e sexos ocasionais nunca me atinge. A inteligência dos grandes mestres são minha companhia.

   Há pouco tempo descobri numa sala de espera a central de informações que eu precisava: a revista Bravo!, e antes que me xinguem, assumo minha culpa: eu sei que ela existe há anos, mas sempre olhei de longe achando que poderia ser intelectual demais para minha pobre inteligéncia . Agora estou apaixonado e viciado. Acabo de fechar a edição de setembro muito bem informado e cheio de anotações de livros, discos e filmes para comprar. Nesse mês soube mais da vida de Henri Cartier-Bresson e suas fotos. Fiquei louco de vontade de ler um livro meio esquecido do Truman Capote. Quis ouvir o disco de versões de Carlos Rennó. Fiquei curioso para ver o novo espetáculo do grupo Vertigem pelas paredes do Sesc da Avenida Paulista.

    Fazer cultura no Brasil não é fácil. Faltam investidores, falta espaço para divulgar, falta público. Só chegam perto da luz os projetos comerciais. Na área musical, cópias de fórmulas desgastadas. Nos teatros, as comédias rasas. Na literatura, formatos de auto-ajuda. A verdadeira novidade fica soterrada na baixaria do fácil consumo. A Bravo! vem na contramão desses vícios e apresenta um painel cultural brasileiro de dar orgulho: espetáculos brilhantes em salas que nunca pensamos existir, filmes interessantes exibidos em cinematecas que nunca entramos, e principalmente, muitos livros para ler e pedir, onde outrora só tínhamos o desejo do previsível. Tudo isso apresentado em resenhas deliciosas e com um olhar crítico de quem sabe do que esta falando.

   Bravo! : vida inteligente nas bancas do Brasil.




A Prova dos Nove

Numa noite de pré- verão de setembro no Rio, mais precisamente no dia 09/09/2009, dia de seu aniversário, Ana Carolina recebeu amigos, fãs e desconhecidos para testar seu disco mais recente na cidade. Apenas nove canções. E quando já não havia mais oxigênio no recinto, tamanha a lotação do lugar, ela surgiu no minúsculo palco com a segurança e o deboche que lhe são peculiares. Parecendo apreensiva com o silêncio que se formou com sua chegada, logo em seguida tomou conta do ambiente, trazendo para si todos os olhares: alguns de desejo, outros de adoração. Cercada de músicos poderosos como Marcelo Costa e Pedro Baby, Ana solta a voz que lhe Deus lhe deu e apresenta um repertório ainda com cara de inédito. Não para o seu fã-clube que tomou as almofadas em frente ao palco e cantou em uníssono cada uma das canções apresentadas. Ana tambem recitou textos que serviram de vinheta tematica para algumas músicas.

Aos poucos relaxando (principalmente com a entrada de sua mais nova parceira musical, a italiana Chiara Civello no palco para cantar e tocar duas canções), Ana parecia estar tendo muito prazer em estar ali perante seus suditos. Nessa noite as faixas do disco se agigantaram e confirmaram sua grandeza quando leva um disco para o palco: tudo se justifica com sua presença, tudo confirma seu talento para as grandes massas. Nessa noite eram apenas 120 pessoas. Mas com sua força ela transformou o pequeno Londra em Maracanã. Como diria Gonzaguinha : Ana Carolina é coisa mais maior de grande.




Arnaldo e Seus Meninos

    Arnaldo Antunes está chegando na casa dos 50. Mas isso não significa nada para esse poeta/cantor inquieto que agora escolhe a tão mal falada jovem guarda como inspiração para seu novo disco Iê Iê Iê que acaba de chegar aqui em casa.

   O que o cd tem de novo? O novo em si. Tocando com ele, os mais recentes músicos e compositores do Brasil, e uma profusão de parceiros, coisa rara num disco de Arnaldo (O Que Você Quiser é a única faixa que assina sozinho). Um projeto coletivo no melhor sentido que há.

Apesar de sempre ter chutado o balde das acomodações, Arnaldo estava um pouco preso ao formato tribalistas em seus últimos trabalhos, e mesmo que aqui existam canções em parceria com Brown e Marisa (Iê Iê Iê e Vem Cá), o disco apresenta bem mais do que isso. De seu passado ele traz Branco Mello, Paulo Miklos Sérgio Britto e Marcelo Frommer. De olho no futuro convida Betão Aguiar, Ortinho e Marcelo Jeneci. Aliás é bom falar que de tropicalismo e bossa nova o mercado já se esgotou, e essa turma que está chegando agora, felizmente, está mais para beber em Odair José e outros “perigosos” (que o poder do Rei Roberto obscureceu nos anos setenta) do que em João Gilberto e Caetano Veloso. virando inesperada e necessária matéria-prima para o rock de Arnaldo que levemente flertou com o brega em seus tempos de Titãs do Iê Iê Iê.

O que eu mais gosto ? As letras. Bem construídas, inesperadas e de inspiração adolescente. Canções para ouvir com a namorada no carro, no Ipod a caminho da Faculdade, quase um “proibidão” para quem tem mais de trinta, tornando o disco lindo, leve e solto como o verão. A voz de Arnaldo também mudou para melhor. Seu registro grave outrora assustador para muitos, encontra-se agora menos agressivo e mais melodioso.

Ao contrário de Nando Reis que esse ano apresentou um disco repetitivo e pouco brilhante, Arnaldo vem disposto a conquistar um público mais jovem que durante toda a sua (já extensa) carreira solo tem olhado de longe para a sua música. Quem sabe não é agora ?




Quem Te Conhece Não Esquece Jamais

    O Patu Fu chegou tarde aqui em casa e não foi por sua música. Sua célula-mãe Fernanda Takai com sua doçura foi que lentamente me atraiu para a banda. Yone Sassa, uma japonesa sábia que trabalhava na MTV foi quem me disse: "você precisa ouvir o Pato Fu". E eu obedeci. Em 2002 comprei o álbum MTV ao Vivo e foi um amor do tipo “antes tarde do que nunca.” Sempre apaixonado por vozes femininas, o canto de Fernanda me prendeu nos laços da banda. E havia muito mais por ali. Letras inteligentes e a escolha de harmonias deliciosas que transformavam o pop-rock em jóia rara.

    Muito se fala em Mutantes quando citam o trabalho do Pato Fu. Eu pobre de informações da banda que teve Rita Lee nos vocais (desculpe minha ignorância) não reparo em comparações. Todo mundo que nasce por aqui sempre se parece com alguém. Marisa Monte é Gal Costa , Vanessa da Mata é Clara Nunes e Fernanda Takai é ....Nara Leão! Ninguém tinha pensado nisso antes quando Nélson Motta num belo insight teve a idéia de homenagear a musa da bossa nova num tributo genial orquestrado por John Ulhoa (o pai do Pato Fu e da Nina) sob medida para a voz de Fernanda. O Brasil caiu de joelhos (desculpe o trocadilho infame) pelo disco. E só deu ela em 2007. Tributos musicais nunca foram novidade no mercado de discos do Brasil, a própria Nara fez alguns durante a sua carreira. A diferença estava na escolha de repertório e na forma inesperada de regravar aqueles clássicos.

    Fernanda cuida muito bem de seus amigos. Dispensa linhas telefônicas mas é presença constante em emails. Não deixa ninguém sem resposta. E foi assim que ela me conquistou. Quando comecei a falar de meu interesse pelo Pato Fu, recebi uma doce mensagem sua na minha caixa de entrada comentando e agradecendo minha nova preferência. E não nos largamos mais. Não existe tempo fechado naquela simpática família mineira: há sempre um sorriso em nossos encontros, uma delicadeza pelo ar em nossos jantares e música, muita música em nossos assuntos.

    Esta semana recebi duas jóias da dupla Takai/Ulhoa: o DVD com a homenagem a Nara Leão e um outro só de raridades do Pato Fu. Escolhi a noite anterior para tanto deleite: liguei minha TV, dei play e ainda cheio de felicidade escrevo aqui minhas impressões.

    O show solo de Fernanda chamado Luz Negra vai além das canções do álbum Onde Bilhem Os Olhos Seus e mistura Duran Duran com o carimbó de Belém do Pará de forma tão consistente e verdadeira que, para um desavisado, essas faixas poderiam ser também do repertório de Nara. E atenção: a regravação de Ben de Michael Jackson não é oportunismo que, com certeza, veremos muitos a seguir após a morte do Rei do Pop. Fernanda já estava cantando essa pérola desde a estréia do show trazendo novos ares para a velha canção. Tudo no projeto exala bom gosto e encanta os olhos: cenário, luz, figurino, a banda e a própria Fernanda irmanados no desejo de fazer bonito.

O DVD de raridades do Pato Fu chamado Extra ! Extra! traz a banda para mais perto de seus (eu) fãs. Andamos pelo palco em forma de câmera, ouvimos gravações feitas no estúdio caseiro em BH, olhamos por dentro dos ônibus da turnê e chegamos até o Japão, onde descobrimos o país do sol nascente pela lente particular de Fernanda e John.

Ontem foi uma noite deliciosa para os olhos e meu coração. É o que eu desejo prá você que me lê agora e que, rapidamente, sairá da frente desse computador para ouvir um bom disco do Pato Fu ou sentir uma saudável saudade de Nara Leão nos braços de Fernanda Takai. Boa viagem.




A Certeza da Beleza

Roberta Sá não é a minha preferida. Nem os críticos dizem que ela vai mudar o mundo como costumam atestar para as novas cantoras de segunda categoria que andam por ai. Mas a inteligência e a sofisticação de repertório fazem dela a promessa mais sólida da nova MPB.

Sua primeira aparição foi no infeliz “Fama” da TV Globo que além de não ter revelado ninguém ainda atrapalhou a vida de quem tinha algo a dizer. Ainda bem que desatenção a verdadeiros novos talentos e o esquecimento são características do ser brasileiro, porque quando Roberta lançou seu primeiro álbum “Braseiro” em 2005, sua participação nesse programa e seu rostinho lindo não foram o carro-chefe do seu currículo naquele momento. Nesse primeiro disco já figuravam as raizes do seu trabalho: o olhar inesperado sobre o passado (“Cicatrizes e “Valsa da Solidão”) e um presente musical bem cuidado por Pedro Luis, Rodrigo Maranhão e Marcelo Camelo (alías é dela, e não de Maria Rita, as primeiras gravações de “Casa Pré-Fabricada” e o samba “Novo Amor” de Edu Krieger). Outro bom exemplo de suas escolhas de ouro foi a retomada do compositor Lula Queiroga que andava esquecido pelo pessoal daqui. Lenine, o seu parceiro mais constante, havia encontrado lugar definitivo nos anos 90 enquanto que Queiroga estava apenas na memória das belas canções. Roberta além de tirar de uma canção dele o nome de seu segundo disco, ainda o aproximou dos novos compositores trazendo sua música para uma platéia mais jovem. Aliás, platéia é o que não falta para Roberta. A moçada carioca e os rapazes de Sampa são loucos por ela. Eu, sempre em sua platéia, atesto para todos os fins: não é uma histeria sexual e gratuita. É um grito de reconhecimento pelo que Roberta traz consigo: o samba novo. O pop de agora. O passado com nova luz.

Essa semana passou por debaixo da minha porta seu terceiro disco e primeiro DVD. Projeto ao vivo que passa sua recente trajetória a limpo. Um risco que ela corre com firmeza.

Vamos primeiro a capa. Em tempos de download, projeto gráfico pobre e sem imaginação leva o disco direto para as prateleiras empoeiradas e sem vendagem. Roberta sempre cuidou de perto desse assunto com fotos e encartes impecáveis. Segundo, seu canto está cada vez mais afiado e potente. E terceiro, ela está linda. Confundindo a sexualidade dos indecisos e confirmando o tesão dos que sabem o que querem.

“Prá Se Ter Alegria” é forte candidato a disco do ano. Mesmo sendo ao vivo. Mesmo confirmando o que ouvidos atentos já sabiam. Um caminho sutilmente perigoso que Roberta Sá atravessa com sofisticação e inteligência. Mesmo que eu já tenha dito isso no começo desse texto.




Num Samba Curto

     Paulinho da Viola é um ícone da música popular brasileira. E como tal corre o risco da estagnação e das frases feitas: um compositor elegante de sambas clássicos. Mas Paulinho foge de tudo e todos e segue fazendo o que quer na hora em que julgue necessário. Uma pausa de mil compassos.

    Esta semana coloquei uma frase de uma canção sua no meu twitter e todo mundo enlouqueceu, porque samba na cabeça das pessoas é pra cantar alto e tem cara de domínio público, não é para refletir. Mas Paulinho da Viola é das antigas. Do tempo em que samba se aprendia na escola com mestres que ensinavam sofisticação e inteligência na hora de alegrar o povo.

Paulinho já trazia em seus primeiros discos uma extrema personalidade carregada de letras densas e sambas profundos como Vinhos Finos...Cristais e Para Um Amor no Recife. Em 1969 deixou o Brasil atônito ao classificar o samba político Sinal Fechado no V Festival da Música Popular e levantou multidões no ano seguinte com a alegria de Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida. Outra preciosidade de sua obra é lançar jóias raras para o futuro sem esquecer o passado: todo o álbum traz consigo pérolas esquecidas de sambistas deixados para trás sem o devido reconhecimento.. Em seu primeiro disco solo, junto com as inéditas, figuravam canções de Carlos Lentine, Casquinha e um Cartola que naquele ano de 1968 estava bem longe da consagração dos tempos de hoje.

    No reveillon de 1996 ao ser convidado para cantar na Praia de Copacabana com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Gal Costa, Paulinho envolveu-se num escândalo sobre as diferenças de cachês recebidos por cada artista convidado. Polêmica que não durou um verão. Paulinho não alimenta confusões com seu nome e se num primeiro momento os baianos, admiradores confessos de sua obra se calaram, hoje Caetano Veloso abre seu novo show gritando em alto e bom som: Viva o Paulinho da Viola !

    Depois de esquecer o meu Ipod num avião e ter de refazer com muita paciência todas as minhas playlists, cheguei ao nome de Paulinho e como sempre acontece desde que descobri sua obra, me surpreendo e me emociono. Abaixo dez sambas que não costumam figurar nas listas habituais e que são igualmente geniais:

 

1. Nada de Novo (Paulinho da Viola)

2. Não Quero Você Assim (Paulinho da Viola)

3. Num Samba Curto (Paulinho da Viola)

4. Roendo as Unhas (Paulinho da Viola)

5. Orgulho (Paulinho da Viola-Capinam)

6. Cidade Submersa (Paulinho da Viola)

7. Quem Sabe (Paulinho da Viola – Elton Medeiros)

8. Toada (Paulinho da Viola)

9. Mais Que a Lei da Gravidade (Paulinho da Viola – Capinam)

10. Bebadosamba (Paulinho da Viola)



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