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35 Canções em 2015

 

 

 

  1. A Casa Não Cairá – Duda Brack
  2. Abraço de Ozu – Rodrigo Campos
  3. Aquilo Que a Gente Diz – Célia
  4. Canção e Silêncio – Zé Manoel
  5. De Dentro do Tempo Que Eu Sou – Helio Flanders (Feat. Cida Moreira)
  6. De Manhã – Zizi Possi
  7. Dor e Solidão – Zé Pi
  8. Dragão - Karina Buhr
  9. Escrevo – Pélico
  10. Feito Um Picolé no Sol – Cida Moreira
  11. Gris – Raquel Coutinho
  12. Jabitacá – Lira
  13. Lampejo – Trupe Chá de Boldo
  14. Lugar Para Dois – Letuce
  15. Menino Velho – Wado
  16. Mulher do Fim do Mundo – Elza Soares
  17. Não Sei Amar – Ana Claudia Lomelino
  18. Niños Heroes – Negro Leo
  19. O Cinema é Melhor – Ná Ozzetti & Passo Torto
  20. Olhos – Cesar Lacerda
  21. Para Curar O Coração – Bárbara Eugenia
  22. Pega a Melodia e Engole – Todos os Caetanos do Mundo (Feat. Arnaldo Antunes)
  23. Prática – Zabelê
  24. Ruivo em Sangue – Gui Amabis
  25. Samba Triste / Saiba Ficar Quieto – Mariana Aydar
  26. Sem Medo Nem Esperança – Gal Costa
  27. Simbiose – Arthur Nogueira (Feat. Antonio Cícero)
  28. Sozinho – Metá Metá
  29. Tudo Que Se Move – Instituto (Feat. Tulipa Ruiz)
  30. Um Milhão de Novas – Filipe Catto
  31. Trovoa – Maria Gadú
  32. Vidas Pra Contar – Djavan
  33. Virou – Tulipa Ruiz (Feat. Felipe Cordeiro)
  34. Você Não Vai Passar – Ava Rocha
  35. Volta – Fafá de Belém



Um Texto Para Duda

Afinal o que é ser cantora? Alcançar notas com maestria ou passar por elas com personalidade? Ter um repertório pessoal, intransferível e iluminado ou obedecer regras e mercados para enriquecer mais rápido? Ser escrava de influências ou sair em busca do inominável? Nesse momento as respostas se dividem, o público se confunde e tudo vira um grande caos musical brasileiro. Duda Brack habita esse universo da forma mais plena possível: fazendo um som que dá tapas na cara do previsível, completamente focada em fazer diferença nessa vastidão de gargantas femininas sedentas de glórias e tronos de diva.  

Insaciável por boa música, presto muita atenção nos sinais vindos das redes, dos toques de quem respeito e das prateleiras das lojas de discos cada vez mais escassas nesse  mundo vão. E foi num dia desses de caça que descobri Duda Brack e nunca mais tive sossego. O grande impacto se deu logo de cara quando avistei a capa doida linda inacreditável feita por uma artista de Budapeste chamada Flora Borsi. Dali em diante, parti pra cima do disco.

Reconheci nomes ao ler a ficha técnica, tudo em vão. A poética sonora de Duda transmuta assinaturas em algo inédito e autoral. Essa garota gaúcha de vinte e poucos anos impõe tamanha personalidade no que faz que logo nos primeiros minutos do álbum aquele velho vício de comparar novidade com antigos estabelecidos dilui–se entre tanta estranheza  e genialidade. Uma canção naïve torna-se solidão irrecuperável, a beleza de um acalanto transforma-se em punhal de amor traído, efeitos Duda Brack de sentir e fazer música

"É" chegou ao mundo no mês de Abril de modo virtual e unlocked para todos. Agora é lançado em estado físico para os sedentos de digipacks, encartes e outras preciosidades do século passado. Seja qual for sua opção de consumo, esteja certo: nada será mais impactante em 2015 em termos de cantora e disco. Duda Brack é artista predestinada ao universo dos grandes. Seja bem vinda, aqui é o país das cantoras. 




Os 10 Melhores Discos de 2014

Rainha dos Raios - Alice Caymmi

Repertório corajoso, lúcido, desconcertante, uma voz que honra as tradições ao mesmo tempo que cospe no estabelecido e um produtor genial chamado Diogo Strausz capaz de alinhar tanta discrepância e cometer uma obra prima.  Enfim, Alice Caymmi foi senhora de tudo em 2014. E o mundo está só começando.

 

           Rock'n'Roll Sugar Darling - Thiago Pethit

 

Rock'n'roll Sugar Darling é convite explícito ao sexo, a transgressão e a imoralidade, palavras que excitam grandes artistas como Thiago Pethit. A porrada das explicit lyrics e a beleza do underground forever, fazem desse disco um dos melhores do ano. Inteligente e corajoso, Pethit sabe misturar referências sem perder o ineditismo. Produzido pelos mestres Kassin e Adriano Cintra, Thiago confirma mais uma vez com açúcar, afeto e afetação sua importância no mundo do pop brasileiro.                          

 

 

                                     O Terno

O talento de Tim Bernardes encontrou sua unanimidade no ano de 2014. Por onde andou como produtor, cantor e compositor deixou sua marca indelével. Este segundo álbum de sua banda tem caráter retrô brasileiro cheio de charme melancólico. Os meninos misturam influências como Arnaldo Batista ("Medo do Medo"), Odair José ("Bote ao Contrário"), um abraço no Raul ("Ai, Ai, Como Eu Me Iludo") e até um encontro utópico entre Lanny Gordin e o Clube da Esquina ("O Cinza"), tudo ao mesmo tempo sem deixar de ser agora. Um tapa na cara da classe media com pinta de artista.   

 

                       Encarnado - Juçara Marçal

Conceitual, musical, arrepiante. Juçara Marçal não é de hoje mas definitivamente a chegada deste seu primeiro álbum solo ao mercado a coloca em regime de igualdade e grandeza diante das tais maiores cantoras do Brasil. “Encarnado” é político, agressivo e dispensa cafunés. É tapa na moleira.

 

                           Asa - Gustavo Galo

“Asa” é íntimo sem ser secreto, existencial sem soar pretensioso e melancólico sem desperdiçar alegrias. Gustavo Galo dá a partida em sua carreira solo causando o primeiro grande disco do ano repleto de participações afetivas de seus companheiros de geração e pedindo benção aos antológicos. “Asa” é beleza pura.

 

         Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários

"Oi, tudo bem?" assim nasce “Amigos Imaginários”, segundo álbum de Anelis Assumpção cheio de coragem musical que apresenta canções que honram a tradição de seu pai Itamar, confirmam seu lado dub jamaicano e prossegue a intenção de fazer diferença nesse mundo grande chamado sampa pop independente. "Anelis e os Amigos Imaginários" não é devaneio inconcluso, é bela renda bordada a fios de ouro.

 

                                Banda do Mar

Dando um tempo no minimalismo existencial, a dupla Mallu Magalhães e Marcelo Camelo partem para o ataque. Repleto de poesia solar, o projeto dispensa jogo implícito ou papo cabeça, a onda agora é dançar, cantar e namorar. Formando um trio com o baterista português Fred Ferreira, Mallu e Camelo só queriam fazer fazer o povo feliz. Conseguiram.

 

                     Barulho Feio - Romulo Fróes

 “Barulho Feio” é o futuro mais belo que a música brasileira possa merecer. Erguendo paredes sólidas, atravessando a rua com seu passo tímido, Romulo Froés morde, beija, sonha e tem talento. “Barulho Feio” não deixa o samba morrer. Quem não ouvir não sabe nada. Grande disco.


               Sobre Noites e Dias - Lucas Santtana

Sinfônico, urbano, contemporâneo. Essa trilogia de palavras compõe a sonoridade de "Sobre Noites e Dias" o sexto álbum de Lucas Santtana. Feito roteiro de um filme imaginário e poético, o disco traça as angústias e os prazeres de um cidadão no mundo. Que pode ser o próprio Lucas. Que pode ser você. Uma verdadeira montanha russa sentimental.


                    Moreno Veloso - Coisa Boa

 Feito Caymmi, Moreno constrói sem pressa uma obra repleta de canções amorosas, simples e perenes. Habitam em "Coisa Boa" harmonias tocantes, haikais poéticos e as eternas raízes do recôncavo baiano. Uma viagem elegante e sincera pelos caminhos da música.

 

 








A Bahia Tá Viva Ainda. Lá e Cá

Durante o dia meu telefone não parava: “Vamos na Alice Caymmi?”,“Será que ainda tem ingresso?”, “Que horas na porta do Metrô?”. Portanto, a adrenalina estava no limite quando chegamos na porta do Sesc Belenzinho ontem a noite para finalmente assistirmos ao show “Dorivália”. No entanto, dentro da choperia encontramos um povo da terceira idade mais a fim de comer um bufffet com preço acessível do que encontrar essa garota que na minha opinião veio pra mudar o mundo. Ignoramos esse possível descaso e começamos a nos dirigir para a frente do palco. E finalmente o milagre se deu: Alice Caymmi invadiu a cena com a fúria dos deuses e levantou cadeirantes, esfomeados e hipsters como uma autêntica senhora de tudo.

“Quem me batizou, quem me nomeou, pouco me importou. É assim que eu sou”. Essa antiga frase de uma modinha de Caymmi é a mais completa tradução de Alice. Ela não tá nem aí. Para alguns kilos a mais ela responde com um figurino carnavalesco e sensual onde as plumas e um collant não tem nada a esconder. Se uma nota sai do tom, sua fúria interpretativa cobre o deslize. Se a plateia se encontra em estado de completa alegria, ela encerra o show aos prantos fazendo uma interpretação definitiva de “Canção da Noiva” à capela.

Dona de uma herança poderosa, Alice poderia seguir à risca as harmonias e verbos de seu avô e se mostrar mais uma diva fabricada a espera de uma mamãe gravadora e um financiamento de cremes e shampoos. Sinto muito, amiguinhos, dessa vez não. Alice veio para escancarar as portas de genialidade, deixar o ar puro da música entrar pelos sete buracos da sua cabeça. Na sua mala hereditária, apenas a coragem.

Se Dorival tivesse nascido na Bahia de hoje, também seria um compositor das multidões, suas canções estariam na boca do povo como qualquer  “Lepo Lepo”. É o que pude constatar ontem ao ver seus hits outrora sagrados virando axé de pista e levantando a poeira do chão em arranjos repletos de guitarra e fúria parecendo implorar por novas consagrações. E eu cada vez mais exausto, querendo captar a reação do público, puxar uma saia imaginária e arrastar sandália, fazendo fotos desfocadas num iphone. Enfim, para quem não foi, beijinho no ombro. Alice Caymmi é a maior. O Brasil agradece. 




A Libido Está Em Toda Parte

Ao apagar das luzes, a descrição da ficha técnica de quase 5 minutos parecia indicar: dentro de instantes mais uma super produção Ana Carolina. Mas de verdade o show só começaria mesmo na décima primeira musica quando Ana surpreendeu a todos (e pelo jeito até a si mesma) ao cantar "Coração Selvagem" do cantor e compositor Belchior. Ao final do numero, a platéia estava toda de pé aplaudindo freneticamente uma cantora que a esta altura já estava aos prantos pela consciência de seu dever cumprido. Antes e depois dessa canção, aconteceu o que já sabemos de cor há pelo menos 15 anos: uma garganta privilegiada, uma compositora hitmaker e a eterna coragem de expor suas questões sexuais no palco. Qualidades estas que colocam seu público muitas vezes em estado de completa histeria, como pudemos verificar ontem ao final do show, quando Ana foi envolvida por um rolezinho de fãs ensandecidas que a levaram ao chão literalmente no exato momento em que cantava os versos de "Eu Sei Que Vou Te Amar" de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. 

Com direção de Monique Gardenberg que desta vez pouco demontra sua forte assinatura cênica preferindo se manifestar mais como cineasta atraves dos vídeos que são projetados numa grande tela, o show está mais para um recital eletrônico, onde as canções para dançar de seu ultimo disco #AC aparecem enfileiradas no primeiro bloco que também apresenta o inesperado cover de "Fire" canção de Bruce Springsteen composta em 1977 e lançada com muito sucesso pelo grupo feminino The Pointer Sisters no ano seguinte.

Na segunda parte, após a costumeira apresentação de seus dons com o pandeiro e uma homenagem ao ídolo Chico Buarque com a musica "Resposta da Rita", Ana arranca risos da platéia ao fazer uma versão acústica do reggaeton "Piriguete" somado aos  versos de "Você Não Vale Nada" do grupo Calcinha Preta. E de repente, o arrastão: meninas endiabradas com chifres coloridos na cabeça correm para a frente do palco sinalizando que o antigo sucesso "Ela é Bamba" era o inicio do ultimo bloco do show. E aí salve-se quem puder: cadeiras viradas, mesas arrastadas e pânico causado em espectadores desavisados que não sabem que Ana Carolina causa efeitos de fogo e paixão em seus admiradores. Um convidado que estava na mesa ao lado da minha gritou: "segura o celular!", não era pra tanto mas é preciso estar atento e forte nessa hora como demonstrava o segurança particular de Ana que atravessava o palco em estado de alerta impedindo qualquer tentativa de ataques voadores à cantora. 

Ana Carolina é uma potência: em tempos de crise, ela fará nesse final de semana aqui em São Paulo, duas noites completamente lotadas no imenso Citibank Hall. Seu novo show confirma todo esse sucesso e serve de aviso para os seus desafetos: Ana Carolina não vai mudar sua postura só pra te agradar. É isso aí. 




10 Discos de 2013

 

 Apanhador Só – Antes Que Tu Conte Outra

Urbano em sua proposta, desconcertante em sua forma, o segundo álbum do Apanhador Só é um soco na boca do estômago do cidadão comum (“Despirocar”) que ainda insiste no amor (“Não Se Precipite”). 

 

 

 Aquário – Tono

Com cara de arte final, o terceiro disco do Tono vem repleto de peixes grandes (Arto Lindsay, Gilberto Gil, Tom e Vinicius) sem perder de vista a transgressão  melódica e verbal. O minimalismo cênico e vocal de Ana Claudia Lomelino acentuam a modernidade e sofisticação dessa banda que é a mais completa tradução da nova música pop carioca

 

 

Cavalo – Rodrigo Amarante

 Capa neutra, minimalismo instrumental, atitude pessoal arredia. Mesmo diante de tantos “nadas”, Rodrigo Amarante fez um dos melhores discos do ano. Rimando amor (“Irene”) e outras alegrias (“Maná”), “Cavalo” foi uma beleza que me aconteceu em 2013.


Frevox – Péricles Cavalcanti

Péricles Cavalcanti é aquele compositor que resiste ao tempo. As décadas passam e ele sempre ali, ao lado dos novos, mantendo a inquietude de sua música e poesia. “Frevox” é um liquidificador de tendências, um misturador de propostas. O melhor álbum de sua carreira. 

 

IARA – Iara Rennó

Em suas incursões por projetos paralelos, Iara Rennó já mostrava grandeza e desejo de fazer diferença na musica pop brasileira. IARA é inquieto, poderoso e necessário.  Sua gravação de “Roendo as Unhas” de Paulinho da Viola entra para a história.

 


O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui Emicida

 Canções autobiográficas atingindo plenamente o coletivo. Vontade de chorar com “Crisântemo”. Vontade de dançar com “Hino Vira-Lata”. Emicida é a chave do seu tempo.

 

Pantim - Lulina

Essa garota que não tem medo do mercado lançando compulsivamente álbuns e singles, chega agora a este “Pantim” mais madura em suas intenções sem perder o timing perfeito de ironia e humor com as coisas da paixão.


 

Passo Elétrico - Passo Torto

A cidade é o centro do cerco desses quatro gênios da nova geração paulista de música. Quando estranhamento e lirismo se tornam uma coisa só. “Passo Elétrico” é o encontro (im)provável entre Adoniran Barbosa e Arrigo Barnabé.

 

Praia - Mariano Marovatto

Se David Lynch resolvesse passar um verão no Rio com certeza “Praia” seria a trilha sonora dessa viagem. Após fazer um primeiro disco sincero sem grandes novidades, Mariano Marovatto parte para a “barra pesada” criando rota de colisão entre discurso amoroso e estranheza melódica.

 

Vamos Pro Quarto ! – Cérebro Eletrônico

Tatá Aeroplano e seus garotos estão de volta. Álbum que celebra a natureza e as coisas do amor em tempos de cólera. Só a canção “Um Brinde aos Pássaros” já valeria o disco. 


 



 





Sonho Com Som

Nessa madrugada de quarta feira, Alice Caymmi me deu um toque em seu Facebook: o novo disco do Tono intitulado "Aquario" finalmente entrou no ar para audição no Soundcloud. Pronto. Era tudo que eu precisava para....não dormir. Que coisa linda, que disco maravilhoso.

Eu presto atenção nesses meninos já faz tempo. O meu gosto pela musica deles tem percorrido uma curva ascendente que encontrou seu ápice há pouco tempo quando fiz o convite para eles participarem do disco "Agenor - As Canções de Cazuza" que produzi para o meu selo Joia Moderna. A canção escolhida, "Amor, Amor", virou assunto de mídias, bares e afins, conquistando mentes e corações. A voz doce, afinada e sedutora de Ana Claudia Lomelino trouxe novo sentido aos versos do poeta e virou musica para sempre no meu Ipod. 
Depois de dois álbuns lançados, Tono chega agora, na minha opinião, ao grande momento profissional em que todos os deuses conspiram a favor, com artistas potentes como Ney Matogrosso gravando suas musicas, uma legião de admiradores em estado crescente e este "Aquário" cheio de boas ideias, harmonias desconcertantes e letras surreais. Produzido pelo sábio Arto Lindsay, com participações de ouro como Gilberto Gil (parceiro na canção "Da Bahia"), Danilo Caymmi e a menina Maria Luiza Jobim, "Aquário" vai além das boas intenções e nomes fortes na ficha técnica, tem cara de prioridade nesse ultimo trimestre musical de 2013. Além da grande safra autoral, surge dentro do disco o inesperado registro de "Chora Coração" de Tom e Vinicius, celebrando a obra desses dois monstros sagrados de forma desrespeitosa no melhor sentido, com uma concepção de arranjo e interpretação que poderá (tomara!) levar esse clássico da MPB a um possível futuro cheio de novos ouvintes. 
Outra fator interessante na trajetória do Tono é a equalização perfeita de interação artística dentro da banda. Todos brilham, todos participam ativamente no palco e no disco, afastando egos e reunindo talentos. Ana Claudia se recusa a posar de bandleader, o carisma de Rafael Rocha vai alem de sua performance como baterista, Bem Gil e Bruno Di Lullo já possuem currículo de pop star por estarem associados a nove entre dez estrelas da MPB e o synth de Eduardo Manso dispensa o posto de coadjuvante para tornar-se também peça fundamental dentro da engrenagem da banda.
Agora já posso dormir tranquilo. Minha primeira audição de "Aquário" chega ao fim. Amanhã começo tudo de novo. Tono repeat.




Cordeira de Deus no Reinado do Som

Ná Ozzetti é a musa da nova geração sampa midnight. A partir disso, é completamente normal que alguns dos principais expoentes dessa turma passassem pra dar um beijo salvador em seu novo álbum “Embalar” onde ela confirma (mais uma vez e sempre) ser dona de um registro vocal único aliado a um repertório ímpar dentro da historia da música brasileira.

Durante alguns anos, Ná exercitou outras possibilidades discográficas em projetos temáticos que homenagearam Rita Lee (“Love Lee Rita”) e Carmen Miranda (“Balangandãs”) além de revisitar o passado da MPB (“Show”) e dividir o palco com o pianista moderno/clássico André Mehmari. Confesso que nesse período fiquei com saudade da sua loucura minimalista e de suas harmonias inéditas sempre a serviço de letras inesperadas. Portanto, em 2011, quando ela lançou o álbum “Meu Quintal” foi reveillon aqui em casa. Estava de volta a cantora que me apresentou a música de São Paulo quando aqui cheguei e fui à loja mais próxima comprar “Ná” de 1994, espécie de passaporte para a minha conexão com Itamar Assumpção e Luiz Tatit. “Meu Quintal” trazia aromas desse passado misturados a ideias e parceiros novos com destaque para a guitarra envenenada de Mario Manga que apontava sinais roqueiros que encontram melhor espaço agora em “Embalar” que tem a participação da nova jovem guarda da garoa (Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci e Juçara Marçal) e tantos outros admiradores confessos de sua música como Mônica Salmaso.

“Embalar” confirma a cesta básica de signos musicais de Ná Ozzetti e atravessa novas veredas em canções como “Lizete” que faz o encontro utópico entre Adoniran Barbosa e o grupo Rumo e as duas faixas que encerram o disco em ritmo de pop atual, “Os Enfeites de Cunha”, que lembra as novidades vindas do Pará e “Prá Começo de Conversa” que poderia perfeitamente estar no álbum “Tudo Tanto” de Tulipa, sua parceira nessa canção.

De resto, é Ná Ozzetti. A mais perfeita afinação a serviço de uma divisão única na hora de entoar os versos de uma melodia. “Embalar” é item básico para seus eternos ouvintes além de dar um passo em direção aos novos e (possíveis?) desavisados a cerca dessa que é uma das maiores cantoras desse país. Pode empacotar, levar e abrir.




Hoje Eu Tenho Que Chorar

No Brasil existe um rei negro chamado Milton Nascimento.

Essa frase é pronunciada nos quatro cantos do mundo porque a obra desse mineiro soberano já atravessou todos os mares, percorreu todos os continentes sem na verdade nunca ter tirado Milton de Três Pontas, cidade que o acolheu. E é aí que reside o preciosismo de sua música:atingir a tudo e todos mantendo o viço de sua raiz fundamental.

Na ultima noite me dediquei a assistir o DVD "Uma Travessia - 50 anos de Carreira" e constatei que um registro visual da musica de Milton Nascimento às vezes até atrapalha a nobreza de sua arte. Sao tantas imagens que projetamos em nossas mentes ao ouvirmos suas melodias , que nada parece satisfazer aos olhos quando somente nos deparamos com um cenário (ainda que bonito),  musicos (ainda que extraordinários)) e a figura tímida de Milton no centro do palco. Queremos sempre mais. Queremos montanhas, vales, céu aberto e, quem sabe até, um grande amor por perto. E foi assim que repletos dessas teorias,  me derramei em lagrimas ao final de cada canção do roteiro e me peguei feito louco, sozinho numa sala, aplaudindo freneticamente cada nota saida da garganta desse verdadeiro deus da música. 

Com um repertório bem dosado entre sucessos ("Maria, Maria", "Nos Bailes da Vida") e pérolas escondidas ("Promessas do Sol", "Sofro Calado"), o show cumpre a meta de abranger todos os periodos da carreira de Milton inclusive dando grande espaço para  a participação de Lô Borges, seu companheiro de Clube da Esquina, que tem varios momentos de brilho individual como "O Trem Azul" e "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo", que levam a plateia ao delirio muitas vezes associado ao saudosismo de  um periodo de extrema riqueza da nossa musica brasileira.

Ao voltar para o bis, Milton deixa os versos de  sua "Canção da América"nas mãos do povo e se cala  diante da multidão a sua frente. E claro que depois ainda surgem "Coração de Estudante" e a emblemática "Travessia" selando o pacto com seu público fiel e agradecido tomado de grande emoção.

E chego ao fim desse texto entre canções e momentos, paixão e fé, encontros e despedidas. Milton Nascimento faz parte da minha vida como cidadão desse pais e da minha historia de menino, aquele que um dia pediu ao pai o disco "Geraes' e descobriu o cantor da sua vida. Obrigado, Milton Nascimento. Sonhos realmente não envelhecem.




Like a Flame Burning Brightly

A melancolia doentia do diretor de cinema David Lynch nunca esteve tão bem acompanhada quanto nessa noite de quinta feira em que Thiago Pethit interpretou (no sentido lato)  músicas que fizeram parte de alguns de seus filmes como "Veludo Azul", "Coração Selvagem" e "Estrada Perdida" no Sesc Vila Mariana.

Ao apagar das luzes do teatro, toda a estranheza e lirismo contidas em canções como "Blue Velvet" e "Love Letters" encontraram em Pethit o intérprete ideal. Com um completo domínio de suas possiblidades, Thiago é realmente o cantor da sua geração que mais sabe tirar proveito da palavra arte, comportando-se em cena com uma dramaticidade na medida certa e utilizando-se de seu recurso vocal com a inteligência de quem sabe podar firulas desnecessárias. Ao seu lado, músicos inacreditáveis formam a “No Hay Banda”, título retirado de uma frase do filme “Mulholland Drive”, de caráter totalmente irônico e contraditório por serem eles, durante o show, a dose exata de competência e musicalidade para o canto de Pethit poder alçar o voo perfeito.

A sensação que eu tinha, sentado na plateia, era de que aquele não era um show feito para uma noite e sim a estreia mundial de uma turnê. Tudo ali fugia do improviso e da precariedade: cenário, figurino e principalmente a luz que atinge seu ponto máximo na canção "Deranged", onde a figura de Pethit se torna um espectro exposto a um frenesi de strobos. No canto esquerdo do palco, a pianista Camila Lordy encarna uma personagem misteriosa que une as imagens de duas musas de Lynch: a cantora Julee Cruise e a atriz Isabella Rossellini. Usando uma peruca loira durante todo o primeiro ato, Camila revela-se morena ao som de "Insensatez" de Tom Jobim (tema do filme "Lost Highway") que anuncia um breve intervalo instrumental com Thiago saindo de cena rapidamente para em seguida retornar ao palco e cantar os versos de Vinicius de Moraes.  

Ovacionado ao final dessa verdadeira montanha russa de estilos vocais feita de monstros sagrados como Elvis Presley (“Love Me Tender”), Roy Orbison (“Crying”), Marilyn Manson (“I Put Spell On You”) e Chris Isaak ("Wicked Game"), Thiago debochou de suas supostas dificuldades (“gostaram da dublagem ?”) sabendo-se vencedor nessa corajosa empreitada. No bis, feliz e mais relaxado, cantou “Devil In Me”, música de sua autoria e que faz parte de seu segundo álbum “Estrela Decadente”, sendo acompanhado em coro por uma legião de fãs que, ainda bem, não para de crescer.

Na saída, inda tonto do que houvera, a cabeça em maresia, como diria Fernando Pessoa, tive certeza: Thiago Pethit é um cara importante.



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