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A Bahia Tá Viva Ainda. Lá e Cá

Durante o dia meu telefone não parava: “Vamos na Alice Caymmi?”,“Será que ainda tem ingresso?”, “Que horas na porta do Metrô?”. Portanto, a adrenalina estava no limite quando chegamos na porta do Sesc Belenzinho ontem a noite para finalmente assistirmos ao show “Dorivália”. No entanto, dentro da choperia encontramos um povo da terceira idade mais a fim de comer um bufffet com preço acessível do que encontrar essa garota que na minha opinião veio pra mudar o mundo. Ignoramos esse possível descaso e começamos a nos dirigir para a frente do palco. E finalmente o milagre se deu: Alice Caymmi invadiu a cena com a fúria dos deuses e levantou cadeirantes, esfomeados e hipsters como uma autêntica senhora de tudo.

“Quem me batizou, quem me nomeou, pouco me importou. É assim que eu sou”. Essa antiga frase de uma modinha de Caymmi é a mais completa tradução de Alice. Ela não tá nem aí. Para alguns kilos a mais ela responde com um figurino carnavalesco e sensual onde as plumas e um collant não tem nada a esconder. Se uma nota sai do tom, sua fúria interpretativa cobre o deslize. Se a plateia se encontra em estado de completa alegria, ela encerra o show aos prantos fazendo uma interpretação definitiva de “Canção da Noiva” à capela.

Dona de uma herança poderosa, Alice poderia seguir à risca as harmonias e verbos de seu avô e se mostrar mais uma diva fabricada a espera de uma mamãe gravadora e um financiamento de cremes e shampoos. Sinto muito, amiguinhos, dessa vez não. Alice veio para escancarar as portas de genialidade, deixar o ar puro da música entrar pelos sete buracos da sua cabeça. Na sua mala hereditária, apenas a coragem.

Se Dorival tivesse nascido na Bahia de hoje, também seria um compositor das multidões, suas canções estariam na boca do povo como qualquer  “Lepo Lepo”. É o que pude constatar ontem ao ver seus hits outrora sagrados virando axé de pista e levantando a poeira do chão em arranjos repletos de guitarra e fúria parecendo implorar por novas consagrações. E eu cada vez mais exausto, querendo captar a reação do público, puxar uma saia imaginária e arrastar sandália, fazendo fotos desfocadas num iphone. Enfim, para quem não foi, beijinho no ombro. Alice Caymmi é a maior. O Brasil agradece.