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Like a Flame Burning Brightly

A melancolia doentia do diretor de cinema David Lynch nunca esteve tão bem acompanhada quanto nessa noite de quinta feira em que Thiago Pethit interpretou (no sentido lato)  músicas que fizeram parte de alguns de seus filmes como "Veludo Azul", "Coração Selvagem" e "Estrada Perdida" no Sesc Vila Mariana.

Ao apagar das luzes do teatro, toda a estranheza e lirismo contidas em canções como "Blue Velvet" e "Love Letters" encontraram em Pethit o intérprete ideal. Com um completo domínio de suas possiblidades, Thiago é realmente o cantor da sua geração que mais sabe tirar proveito da palavra arte, comportando-se em cena com uma dramaticidade na medida certa e utilizando-se de seu recurso vocal com a inteligência de quem sabe podar firulas desnecessárias. Ao seu lado, músicos inacreditáveis formam a “No Hay Banda”, título retirado de uma frase do filme “Mulholland Drive”, de caráter totalmente irônico e contraditório por serem eles, durante o show, a dose exata de competência e musicalidade para o canto de Pethit poder alçar o voo perfeito.

A sensação que eu tinha, sentado na plateia, era de que aquele não era um show feito para uma noite e sim a estreia mundial de uma turnê. Tudo ali fugia do improviso e da precariedade: cenário, figurino e principalmente a luz que atinge seu ponto máximo na canção "Deranged", onde a figura de Pethit se torna um espectro exposto a um frenesi de strobos. No canto esquerdo do palco, a pianista Camila Lordy encarna uma personagem misteriosa que une as imagens de duas musas de Lynch: a cantora Julee Cruise e a atriz Isabella Rossellini. Usando uma peruca loira durante todo o primeiro ato, Camila revela-se morena ao som de "Insensatez" de Tom Jobim (tema do filme "Lost Highway") que anuncia um breve intervalo instrumental com Thiago saindo de cena rapidamente para em seguida retornar ao palco e cantar os versos de Vinicius de Moraes.  

Ovacionado ao final dessa verdadeira montanha russa de estilos vocais feita de monstros sagrados como Elvis Presley (“Love Me Tender”), Roy Orbison (“Crying”), Marilyn Manson (“I Put Spell On You”) e Chris Isaak ("Wicked Game"), Thiago debochou de suas supostas dificuldades (“gostaram da dublagem ?”) sabendo-se vencedor nessa corajosa empreitada. No bis, feliz e mais relaxado, cantou “Devil In Me”, música de sua autoria e que faz parte de seu segundo álbum “Estrela Decadente”, sendo acompanhado em coro por uma legião de fãs que, ainda bem, não para de crescer.

Na saída, inda tonto do que houvera, a cabeça em maresia, como diria Fernando Pessoa, tive certeza: Thiago Pethit é um cara importante.