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Alegria Que Declara a Revolução

Eu estava lá em 1992 quando Daniela Mercury mudou o canto das cidades. Garoto que transitava entre a MPB tradicional e o rock inglês, vocês podem imaginar o tamanho da minha revolta quando aquele som percussivo feito de letras ingênuas invadiu as rádios e vitrolas do Brasil. Ainda por cima, ao me recusar a tocar “Suingue da Cor”, perdi meu primeiro emprego de DJ. Vinte e um anos depois, me encontrei sentado no Sesc Pinheiros para assistir a estreia de “Pelada”, o novo show de Daniela, onde agora atabaques mais suaves e levadas românticas são o retrato de seu repertório. Foi ali que me perdi em divagações que vou tentar descrever aqui nesse texto.

Coragem e loucura. Um verdadeiro artista, na minha opinião, deve transitar entre esses dois assuntos e ao ver Daniela entrar no palco ontem literalmente seminua diante de um público que esgotou  os ingressos para os quatro dias em apenas quatro horas cantando um repertório completamente autoral e estranho aos seus súditos acostumados a micaretas e muito suor, imediatamente me peguei aplaudindo com muita intensidade essa mulher que, ao declarar-se perdidamente apaixonada por alguém do mesmo sexo, pegou seus ouvintes e desafetos completamente desprevenidos, tornando-se novamente assunto de todos os jornais do Brasil. Naquele momento eu só pensava numa coisa: musicalmente, no meio desse furacão de boatos e confirmações sobre sua vida pessoal, como irá se comportar Daniela em seu próximo disco/show ? “Pelada” não responde a essa minha pergunta de forma clara porque mistura palavras e canções de uma forma tão pessoal e intransferível que parece não existir um roteiro definido, apenas a vontade urgente de uma artista de se expor completamente aos olhos do público. Em cena, Daniela chora, repreende um espectador desatento, provoca a multidão nas cadeiras com perguntas tais como “tem algum neurótico na platéia ?”, desfia suas indignações contra a politicagem brasileira e...canta. Canta lindo. Se algumas músicas são feitas de uma verborragia desnecessária outras como “Aeromoça” e “Cinco Meninos” provocam muitos aplausos e emoção. Em momento algum parecendo estar perdida no palco entre tantas divagações e propostas musicais, Daniela nitidamente não pede licença. Simplesmente faz o que quer. Dentro desse tema, abro aqui um espaço para outro pensamento que me assaltou durante o espetáculo

Ao contrario do procedimento que virou vício na carreira dos cantores populares no Brasil, Daniela não vampiriza as celebridades musicais do momento. Não faz fotos abraçada em Anittas, Naldos e tantos outros eternizados em 15 minutos nesse país do efêmero. Artista inquieta, ao gravar um DVD ou lançar um disco, Daniela sempre procura seus próprios caminhos que poderão dar em tudo ou nada mas, com certeza, sempre serão seus. Ao longo desses anos, ela se misturou com música eletrônica em pleno carnaval da Bahia, abraçou o pop quando todos copiavam sua axé music e fez canção de protesto quando todos descartavam pensar. Corajosa e louca. Como todo o artista deve ser.

“Pelada”, o show, vem para confundir e nunca para explicar. É um show urgente e em technicolor, como diria Clarice Lispector, onde Daniela Mercury expõe sua vida e sua arte em carne, osso e coração. Uma baiana arretada.