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A Escuridão No Coração

 

O amor é chama que sempre apaga.  O verso composto por Marcos Valle e seu irmão Paulo Sergio em 1967, é o retrato mais que perfeito desse sentimento que, sabemos, só é infinito enquanto dura, como diria o outro poeta Vinicius. Mesmo assim, eternamente conscientes dessa verdade, quando o infortúnio do fim nos bate à porta, insistimos no não conformismo. Assim começa o filme “O Abismo Prateado” de Karim Aïnouz.

Alessandra Negrini interpreta uma mulher como tantas, indefesa diante de um casamento desfeito. Tal qual uma Alice desesperada na cidade das maravilhas , ela percorre as ruas do Rio de Janeiro em completo estado de agonia e solidão. Uma verdadeira cobaia de Deus atravessando sinais vermelhos, desejando a morte diante do mar e transformando qualquer transeunte em inimigo imaginário.

Apesar de não recebermos na entrada do cinema óculos para uma exibição em 3D, o filme de Karim Aïnouz literalmente salta aos olhos com uma projeção lisérgica feita de cores e imagens desfocadas. O caos sonoro das ruas de Copacabana torna-se a mais perfeita tradução dos sentimentos da personagem, numa história feita de poucos diálogos e muitas sensações.

Com roteiro inspirado na canção “Olhos nos Olhos” de Chico Buarque, o filme poderia padecer dos efeitos literais e digeríveis de um chamado “padrão globo de qualidade” entretanto, Karim Aïnouz percorre um caminho bem longe das obviedades, esbanjando tamanha poesia autoral que, confesso, só me lembrei do motivo inicial da trama ao ouvir, quase perto do fim, a interpretação desrespeitosa (no melhor sentido) da cantora Barbara Eugenia invadindo a tela  e transformando os versos manjados da canção de Chico em um verdadeiro soundtrack inédito.

Não quero cometer injustiças aqui omitindo nomes da ficha técnica que, com certeza, fizeram desse filme uma verdadeira obra prima, portanto citarei só mais um grande motivo para você correr para os cinemas: o ator Thiago Martins. Esse autêntico menino do Rio, confirma seu real interesse pela arte de representar tornando-se neste filme o contraponto ideal para a exuberância interpretativa de Alessandra Negrini. A chegada de seu personagem é o verdadeiro golpe de mestre armado por Karim Aïnouz dentro da trama, uma verdadeira “pegadinha” amorosa que induz o espectador a falsas conclusões antes do final verdadeiramente surpreendente.

Enfim, “O Abismo Prateado” é um pequeno grande filme sobre o amor, esse barco tonto num vasto oceano de riso e de pranto, de gozo e de dano, como diria aquela outra velha canção.