HOME BIO DISCOGRAFIA LIVRO REMIX E TRILHAS TEXTOS GALERIA LINKS CONTATO


Feliz e Mau Como Um Pau Duro

 

​Ontem eu me dei bem. Estava na primeira fila do HSBC Brasil para ver o novo show de Caetano Veloso aqui em São Paulo. Ontem eu me dei mal. O publico, ao contrario do lançamento no Rio de Janeiro que lotou de gente jovem o Circo Voador, estava sonolento e completamente desentendido do que vem a ser o "novo" Caetano, aquele que desde 2006 tem atormentado seus "antigos" ouvintes com muito rock’n’roll e vitalidade. O desespero dos braços levantados no bis com "A Luz de Tieta” demonstrava isso: todos queriam aquele Caetano do DVD ao vivo com Ivete Sangalo ou a volta dos melhores momentos do show com Maria Gadú. E nada disso aconteceu. Caetano não quis dar esse abraçaço na turma da coxinha de galinha, cerveja e carro do ano.

Com leves modificações no roteiro carioca (como a retirada da extensa "Alexandre" de 1997 e da dolente canção “Gayana” de seu novo álbum), Caetano começa o show comentando a bossa nova para logo cair em belas melancolias como "Quando o Galo Cantou” e "Estou Triste". Ate ai tudo bem. Entretanto, quando corajosamente apresentou a canção "Um Comunista" de 8 minutos e 29 segundos, foi demais: eram filas no banheiro, cadeiras rangendo e Iphones acendendo. Enfim, o Caetano Veloso das multidões não compareceu na noite dessa quinta feira. Muito pelo contrario: ali estava o baiano destemido que enfrentou vaias e descasos nos tempos da ditadura ("Você Não Entende Nada"), o garoto de Santo Amaro cantando as coisas de sua gente (Reconvexo"), o eterno muito romântico ("Lindeza") e, acima de tudo, o cara sempre atento e forte (“Funk Melódico” e “Império da Lei”). E eu gostei, pulei, dancei e nunca mais esquecerei.

Como diria Caetano, é incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer. Para um seguidor fiel de sua obra como eu, estava claro que após tantas cordas de Jacques Morelenbaum, milhões de cópias vendidas com a canção “Sozinho” e projetos ambiciosos como “Fina Estampa” e “A Foreign Sound”, algo de novo iria acontecer. E foi assim que o álbum “Cê” arejou, surpreendeu e reconquistou os incansáveis ouvintes do disco “Transa”, esse LP emblemático que é objeto de adoração entre “hypados” e “cults”. E assim se passaram sete anos. É claro que nesse tempo, Caetano não se calou diante do povão brasileiro cometando investidas comerciais como cantar ao lado de hitmakers imediatistas, lançar polêmicas em sua coluna semanal de domingo no jornal O Globo e sustentar o jargão “Feliciano Não Me Representa”, mantendo em fogo brando os seus fãs menos atentos e sempre dispostos a aplaudir esse ícone da música brasileira. Sendo assim, o nome de Caetano Veloso num outdoor sempre irá atrair equivocados e/ou reais interessados em sua obra. Mas ontem a alegria excelsa não compareceu. Quando Caetano começou a acenar para os mais afoitos e se preparar para sair de cena, o desespero era latente. Cadê o “Leãozinho” ? Perguntavam alguns. “Desde Que o Samba é Samba!” gritavam outros. Até minha companheira de mesa não se conteve: “Odara!”. E Caetano voltou para o bis e não deu mole com a inédita “Vinco”. Na saída, bem lá no fundo, por só terem grana para os ingressos mais baratos, avisto a galera do Studio SP, do Cine Joia e de outros inferninhos paulistas que estavam ali para celebrar o show que Caetano realmente quis mostrar e não conseguiu. A burguesia das primeiras mesas não deixou. Como disse Jorge Ben em 1969, que pena, que pena. Mas eu não vou chorar, eu vou é tocar meu “Abraçaço” bem alto e cantar. Afinal de contas...Caetano Veloso é foda.

 

P.S.: Essa foto é do Circo Voador.