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No Corpo, Na Alma e No Coração

Ontem fui ver o novo show de Maria Bethânia intitulado “Carta de Amor” no HSBC Brasil aqui em São Paulo. Não teve jeito. Minha mente resiste, meus amigos insistem, meu coração vacila e lá estou eu na primeira fila.

Tenho dito insistentemente aqui que a trajetória de Maria Bethânia está acima do bem e do mal, que o meu modesto olhar critico (quase insignificante diante de tanta grandeza) jamais interferirá em sua potência. Definitivamente é uma artista que soube construir uma carreira. O meu defeito desde menino (7 anos de idade !), foi o excessivo mergulho em sua obra, um processo quase obsessivo que me fez, nos últimos anos, sentir um certo cansaço ao ouvir seus discos e comparecer aos seus shows por saber de cor todas as manobras, todos os gestos, todo o processo de criação. Mesmo assim, ontem me sentei na plateia desarmado de qualquer tipo de defesa, pronto para receber a emanação dessa estranha força bruta que habita o Brasil desde 1965.

O que mais me incomodou, como sempre, é o que acho mais louvável: sua plateia (hoje em dia muito jovem)  de fiéis que somente obedecem aos seus instintos primitivos de adoração e que, a cada braço erguido ou nota musical estendida, entram em completo delírio e descontrole emocional muitas vezes interrompendo a cena de Bethânia que ao sorrir e agradecer só aumenta o transe da multidão. Para eles sua deusa não desafina, não apresenta um roteiro previsível, não demontra sinais de cansaço.

 Até 1996, o publico que acompanhava Bethânia eram os habitués de seus espetáculos dos anos 60 e 70 que amadureciam junto com ela. Após a estreia no Rio de Janeiro do show “Âmbar” (com lotação modesta, eu estava presente) houve uma crescente aproximação de meninos muito jovens, verdadeiras procissões de iniciantes que tornaram “Imitação da Vida” (agora passaria a se chamar assim) um dos maiores fenômenos de venda e crítica na carreira de Bethânia. E seguiram em frente com “Maricotinha” e “Brasileirinho”.

Mas voltemos ao “Carta de Amor”. O que mais me impressionou ontem foi constatar que as canções do disco “Oásis” que na minha opinião é o mais morno de sua discografia (confesso, nem comprei) ganham importância no palco com a dramaturgia de Bethânia. Ali com o auxilio luxuoso de seus olhares cheios de significados, seus dedos em riste e sua respiração ofegante acompanhando as intenções da letra, músicas como “Calunia” e “Barulho” gravadas no álbum de forma acústica e sonolenta, adquirem relevância. Outros dois bons momentos são a canção “Estado de Poesia” inédita de Chico César e a lembrança de “Escândalo” de Caetano Veloso que, apesar de regravada a exaustão, encontra em Bethânia um grande momento. Falando em seu irmão, a ideia de colocar “Não Enche” no roteiro decididamente não funciona. Já em casa assistindo a diversos vídeos no YouTube, constatei que em nenhum deles Bethânia consegue acompanhar a velocidade da melodia, tropeçando nas palavras constantemente. Mesmo presa ao teleprompter (péssimo vicio adquirido para uma mulher que se justifica por sua liberdade de movimentos em cena), Bethânia também escorrega nas armadilhas poéticas  de Arnaldo Antunes, mostrando-se tensa nas novidadeiras “A Nossa Casa” e “A Casa é Sua”. No mais, é Bethânia. O fogo da fantasia, o precipício de aventura, o abismo do mistério.

Até o final do ano “Carta de Amor” vira Blu-Ray, DVD, CD enfim, de todas as maneiras que há de se amar Bethânia e que farão seus seguidores correrem para as prateleiras. Um show que decididamente não entra na minha lista de clássicos mas que para os mais jovens com certeza tem cara de eterno. Ok, vocês venceram.