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Nothing (But Flowers)

 

Eu tenho ido pouco ao teatro. Dois motivos me levam a isso: desatenção aos cadernos culturais e o medo de errar. Estar sentado numa plateia de frente para um ator sofrível encenando um texto ruim é desesperador. Além disso, São Paulo tem uma diversidade muito grande de peças o que sempre me faz entrar em parafuso na hora de escolher. Sendo assim, a música e o cinema tomam conta da minha agenda. Mas existe um nome que muda essa minha rotina: Monique Gardenberg. Toda vez que essa diretora inventa um novo espetáculo, estou na primeira fila. E neste ultimo sábado aqui em São Paulo não foi diferente, fui até o Sesc Pinheiros para assistir “O Desaparecimento do Elefante”.

Para este show/teatro/cinema acontecer, duas alquimistas se juntaram ao toque de Midas de Monique: a cenógrafa e diretora Daniela Thomas e a atriz e também diretora Michele Matalon (que decididamente o Brasil precisa conhecer melhor por sua dedicação e talento). Neste ambiente totalmente feminino, a obra de Haruki Murakami, autor dos cinco textos apresentados, encontrou o seu melhor lugar. Cenas aparentemente banais que desaguam em estranhezas fizeram desse escritor um dos maiores sucessos da literatura mundial. Num hibrido de surrealismo e normalidade, seus contos clamam por encenação. Sabendo disso essas três mulheres criaram um circo de imagens onde atores/trapezistas se lançam no espaço das palavras de Haruki sem rede de proteção.

Não vou me estender aqui nas minúcias de cada texto apresentado, na precisão crítica de cada ator, prefiro descrever minha emoção ao ver Kiko Mascarenhas ser aplaudido em cena aberta várias vezes durante o seu monólogo intitulado “O Comunicado do Canguru”. Há tempos não via um ator tão arrebatador no palco. Meu desejo de gritar "bravo" e interromper seu transe era incontrolável . O primeiro impacto eu havia sentido na peça “Os Altruístas” dirigida por Gui Weber  onde sua presença em cena arrancava faíscas do palco. Quero falar também de uma menina chamada Fernanda de Freitas que eu confesso nunca tinha visto ou ouvido falar e que mostra perfeita consciência do que está representando no conto “O Pássaro de Cordas e as Mulheres da Terça-Feira” e finalmente comento aqui a confirmação do talento de Marjorie Estiano e André Frateschi, dois (já) velhos companheiros de Monique Gardenberg em suas encenações.

A trilha sonora é um caso a parte dentro do espetáculo. Bem longe de serem meramente incidentais, as canções escolhidas são melodias/textos que, somados a dramaturgia, provocam a plateia e trazem (quem sabe) novo sentido aos escritos de Haruki. Gal Costa, The Temptations, Criolo, Raul Seixas, Carl Douglas e Caetano Veloso surgem inesperadamente causando espanto e prazer durante toda a narrativa.

E aqui encerro meu inventário de emoções sobre “O Desaparecimento do Elefante”. Você com certeza encontrará outros motivos de discussão, outros pontos de encantamento como acontece ao desvendarmos uma boneca russa. A obra de Haruki Murakami é bem mais perigosa e cheia de mistérios que toda a nossa vã filosofia. Por isso, vá ao teatro.

Até a próxima, Monique.