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Guerreiro Coração

Hoje vou dar um tempo nas minhas alegrias. Emilio Santiago, o cantor das multidões da minha geração, deixou esse mundo. Também perdi um amigo atencioso, um companheiro de várias noites aqui em São Paulo, onde nunca deixei de repetir incessantemente a importância de sua voz nesse país desatento.

Emilio começou pelos bares da noite. Foi ali que impressionou clientes acostumados a beber e esquecer quem está no palco, despertando a curiosidade de produtores musicais que logo o levaram para o mundo do disco na década de 70. Dono de um timbre grave e sedutor, Emilio ficou conhecido pelos primeiros sambas que cantou, num momento em que o Brasil aplaudia também outros companheiros de estilo como João Nogueira, Jorginho do Império, Roberto Ribeiro e Luiz Airão. Ao mesmo tempo que se dava bem nos ritmos populares, Emilio arriscava outros repertórios com inéditas de Gonzaguinha, Djavan e muitas regravações de clássicos de seus ídolos como Dick Farney. Até que um dia a fonte secou. Era hora de mudar. Aquele momento em que o cantor sofre pressões de gravadora e seu público começa a hibernar. E foi assim que nasceram as “Aquarelas”, projeto descaradamente comercial que realmente colocou Emilio na pole position das grandes vendas e casas de shows lotadas. Nesse momento me distanciei do seu canto mesmo consciente de sua merecida vitória. Por ironia, foi durante essas “minhas férias” de sua música que conheci pessoalmente Emilio, esse homem elegante, sempre atento com tudo e todos ao seu redor, reconhecendo e aplaudindo seus companheiros de vida e arte. Definitivamente, usando o chavão (muitas vezes aplicado de forma leviana hoje em dia) um cara do bem.

Há muitos anos, antes mesmo de ter uma gravadora, venho lutando pelo relançamento da obra completa de Emilio Santiago. Agora que ele gozava de uma serenidade artística onde podia tudo, como gravar um disco com João Donato e no próximo projeto voltar ao samba popular, seria fundamental que esse país entendesse e consumisse sua obra por completo. Seus discos na gravadora Universal são verdadeiras obras-primas: arranjadores fundamentais e canções imortais registradas por uma garganta privilegiada. Espero que agora façam justiça.

Não quero mais escrever. Hoje fico parado aqui no meu canto. Aqui nesse momento, silêncio e sentimento. Como diria Caetano, estou triste, tão triste, estou muito triste. A voz do povo se calou.