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Um Prato A Se Ofertar Que Me Faz Salivar

 

Setenta e um. Esse era o numero que não saia da minha cabeça ontem quando estive (mais uma vez e sempre) de frente para o palco onde Ney Matogrosso apresentava seu novo show “Atento aos Sinais” aqui em São Paulo no HSBC Brasil. É inacreditável que esse “senhor” de 71 anos continue a insistir no novo deixando para trás seu passado de glorias e mantendo o vicio de se reinventar. Aliás, eu estou mentindo. Ney não mudou. É o mesmo provocador que surgiu no cenário musical brasileiro dos anos 70 e derrubou dogmas e preconceitos com sua nudez descarada, uma garganta privilegiada e alma de artista único. Agora, num cenário que é uma verdadeira arena eletrônica, ele aparece cercado por músicos gigantes vestindo um figurino tecnológico e  um rosário de canções basicamente inéditas. É o verdadeiro astronauta lírico da canção de Vitor Ramil que aparece no bis.

Misturando Paulinho da Viola, Blackberry e Criolo (deu pra entender ?), “Atento aos Sinais” demonstra ser a arte final de dois de seus projetos anteriores: “Olhos de Farol” e “Inclassificáveis” que, apesar de extraordinários e fundamentais no momento em que foram lançados, parecem ceder a vez a esse novo show que esquenta o repertorio para um disco que ainda nem foi gravado. Sim, Ney Matogrosso tem a coragem de fugir do velho e surrado esquema “turnê de lançamento” e enfrenta seu público com uma sequência de canções desconhecidas que seduzem de cara toda a plateia formada por “mocinhas” de cabelos brancos e meninas completamente descontroladas na frente do palco. E eu no meio delas gostando, adorando, gritando feito louco, alucinado e criança.

Durante muito tempo Ney entrou em cena mudo e saiu calado. Desfazer-se do personagem com agradecimentos ou com a palavra sem música parecia impossível. Era inacreditável nos anos 80 ver ele enfrentando programas histriônicos como  o Cassino do Chacrinha sem nenhuma forma de comunicação a não ser sua atitude e seu som. Hoje em dia um grito seco e grave de “boa noite” ecoa em vários momentos durante o show e se for preciso ele volta para um suposto segundo bis e diz que não irá fazer por não ter mais nada a apresentar. E seus súditos respeitam, se calam e seguem em direção a rua. Na saída o assunto continua: discussões sobre seu carisma, a beleza das canções, a grandeza do cenário, demonstrando a total e completa satisfação.

“Atento aos Sinais” é um nome emblemático na atual situação da música brasileira. Enquanto algumas cantoras resolvem comemorar 10 anos de carreira pedindo a benção de Elis e Tom, dando um basta (quem sabe definitivo ?) em seus projetos autorais em busca de 15 minutos de vendas e sucessos, Ney Matogrosso olha para o futuro e resolve comemorar seus 40 anos de estrada pedindo ao senhor do tempo que abençoe os que virão. E se dá bem. E nos faz bem. Como diz a canção: é assim que se faz, é assim que se ama.

Enfim, eu não tenho mais palavras para Ney Matogrosso. Quem acompanha meus rabiscos sabe da quantidade de textos apaixonados e agradecidos que eu já cometi aqui. É um respeito tão grande que se mistura ao temor diante de tanta grandeza. Apesar de se revelar um cara comum longe do palco, eu não quero intimidade, fujo de camarins e aproximações. A minha sede eu mato na plateia sempre atento aos seus sinais. Ney Matogrosso é segredo. É sagrado.