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A Menina Ainda Dança

 

Domingo é dia de culto por isso nada mais apropriado que os devotos de Baby do Brasil invadissem ontem a casa de shows HSBC e transformassem o lugar numa grande igreja de fiéis dessa que é a mais completa tradução da palavra carisma.

Foi no final do ano passado que a noticia se espalhou: Baby do Brasil daria um tempo em suas pregações e retomaria sua carreira musical em grande estilo aconselhada por seu filho Pedro Baby e sob os cuidados administrativos de Paula Lavigne. Não deu outra. As ferramentas sociais transbordaram de vivas e expectativas. Até que o grande dia chegou e a cidade do Rio de Janeiro assistiu primeiro e completamente maravilhada ao retorno fundamental dessa garota carioca chamada Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade que um dia juntou seus trapinhos e foi de mala e coragem para a Bahia procurar sua turma e encontrou virando Baby Consuelo de todos nós.

Os Novos Baianos foram (são) pedra fundamental dentro da história da música brasileira. Malucos, cabeludos e geniais, eles criaram as dunas do barato em plena praia de Ipanema , aprenderam tudo com João Gilberto, viveram num completo “estado de sítio” em Jacarepaguá e viraram profetas e poetas em plena ditadura. E Baby Consuelo sempre com eles. Musa inspiradora de diversas canções e voz predominante dentro do grupo, Baby ainda escolheu ser mãe coragem, ficando grávida de Pepeu Gomes no meio desse festejo hippie, onde nem sempre tudo era plenitude e prosperidade. A barra também ficava pesada. Desavenças artísticas e pessoais aconteciam e o dinheiro era quase sempre artigo raro entre a “rapeize”. Até que um dia o sonho acabou. Era hora de encontrar novos rumos afetivos e profissionais.

Em 1978 chegava às lojas o primeiro disco solo de Baby onde ela esbanjava personalidade (“Eu Sou Baby Consuelo”), prosseguia sonoridades da antiga turma (“Brasileirinha”), dava a partida em sua parceria “eterna” com Pepeu (“Ele Mexe Comigo”), além de uma homenagem direta a cantora Ademilde Fonseca (uma de suas maiores influências) no choro que dá nome ao disco “O Que Vier Eu Traço”

Com a chegada dos anos 80 o Brasil pirou de vez. Era o fim da ditadura, a fase das ombreiras gigantes e uma enxurrada de teclados e outros elementos eletrônicos que devastaram a nossa MPB. Baby,sempre  ligada no seu tempo, virou uma espécie de mulher maravilha da aldeia tupi com cabelos coloridos, visual extravagante e letras cósmicas e telúricas. Programas de televisão exibiam sua imagem incessantemente, nas rádios era campeã de execução e nos palcos arrastava multidões.

No final do milênio as coisas mudaram radicalmente. Se para melhor ou pior, você decide. Seu nome agora era Baby do Brasil e os ideais religiosos emudeceram sua obra pop durante parte dos anos 90 e completamente na década seguinte.

Tudo isso que escrevi até agora foi para situar você que talvez não saiba ou não compreenda o porque do verdadeiro estado de histeria e expectativa que tomou conta de tudo e todos nessa noite de domingo em São Paulo.

O show estava marcado para as 20hs mas bem antes os mais afoitos já estavam em estado de alerta do lado de fora. E não paravam de chegar famosos, descolados, povo da moda, músicos e afins. Frases como “não vejo a hora de começar” e “o que será que ela vai cantar ?” eram repetidas incessantemente até que, assumindo minha ansiedade, corri para a frente do palco. E foi ali entre risos e lágrimas, suor e cerveja que eu vi um dos shows mais emocionantes da minha vida. Hipnose e delírio. Catarse e paixão. Ao meu redor gente de todas as idades compartilhavam do mesmo êxtase cantando, pulando e fotografando. Uma verdadeira sintonia espiritual, um prazer transcendental. Os mais velhos choravam com “Acabou Chorare” e os mais novos saudavam os antigos hits “Sem Pecado e Sem Juizo” e “Menino do Rio” como se tivessem nascido há dez mil anos atrás. No palco, cercada por uma banda competente e consciente de sua força, Baby Consuelo do Brasil comandava a massa com ares de grande sacerdotisa. O que ela cantava era lei, o que dizia era sagrado. Ao final do show o transe parecia não ter fim: inimigos se abraçavam, apaixonados se beijavam e todos procuravam um tapete voador para voltar pra casa. Noite de amor. Noite de fogo e de paz.

Enfim, depois de tudo que eu disse aqui só resta uma pergunta:

E agora, Baby ?