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Let's Spend The Night Together

    Stonewall, Galeria Alaska, Boate Medieval e Corinto. Se esses nomes não lhe dizem nada, você está na casa dos 20 ou 30 anos de idade. Se bateu aquela sensação de nostalgia e um aperto no coração, você já tá pra lá de Marrakesh. Mas nada disso importa: a noite é para todos. E apesar da crueldade do calendário virando suas folhas incessantemente, as luzes continuam acesas para quem quer se jogar.

    “A Volta da Paulicéia Desvairada” de Lufe Steffen mantém o foco de suas entrevistas apenas no mês de março de 2012 mas quem um dia tomou ácido e pirou, bebeu todas e vomitou, sabe que os figurinos saem de moda, as música mudam, os bares abrem e fecham e o povo da noite continua o mesmo: lindo, leve e solto.

    Feito Regina Casé em “Brasil Legal”, Lufe e sua equipe saem em busca de gente simples e extraordinária percorrendo o lado “hard” da  rua Augusta, entrando em diversos clubes de São Paulo e dando de cara com uma turma disposta a desabafar e botar seu bloco na rua. Muitos nem sabem direito onde estão de tanta “colocação” mas causaram forte reação de gritos e aplausos na plateia do Festival Mix Brasil com seus discursos dissonantes e alucinados.

    Como um cara da noite, é claro que eu reconheci rostos que me causaram forte adrenalina: Silvetty Montilla, a única e verdadeira drag que até hoje arrasta uma legião de súditos por onde passa, o “eterno” hostess Michael Love do clube A Lôca, o DJ “unanimidade” André Pomba e o pensador Vitor Ângelo, figuras carimbadas do underground paulistano que dão seus depoimentos e fazem pensar causando o contraponto ideal com a maioria dos entrevistados, praticamente recém-saídos da adolescência e... já muito loucos !

     Em sua maioria são meninos e meninas que vem da periferia para terem na noite a sua hora da estrela. E fazem de tudo por isso: cabelos assimétricos, piercings nos lugares mais inusitados e uma edição fashion de abalar ! Todos demonstram imensa liberdade, uma leve consciência social e sexual somados a uma vontade extrema de ser feliz. O filme encontra com vários casais homossexuais dispostos a cometerem beijos sem censura na grande tela e que em momento algum escandalizam e sim despertam uma sensação de alívio para quem, com mais de 40, ainda lembra dos “cóiós” que levou pelas ruas num tempo em que ser gay era coisa pra macho.

     São muitas as “parties” espalhadas por São Paulo em 2012, todas com forte assinatura musical e propostas de engajamento (calma ! no melhor sentido). O povo que frequenta essa ou aquela festa abraça a causa e procura por adesão durante o filme dando depoimentos sedutores quase como um flyer ambulante. E os estilos musicais são os mais variados: durante a exibição ouvimos rock, bate-estaca, samba e outros bichos coreografados “in loco” nas pistas soando com uma autêntica marcha do povo doido, como diria o poeta Gonzaguinha.

    E tudo corre as mil maravilhas até aparecerem as “barbies”, que assim como os mauricinhos e patricinhas causam pânico em gays libertários. Ao surgirem as imagens de uma grande boate paulistana em que esse tipo de gente habita, o cinema entra em estado de espera e silêncio. Ao ouvirmos que o dono do estabelecimento detesta a música que toca lá e ouve no seu carro somente bossa nova, inicia-se quase um princípio de vaia. Ainda bem que logo os ursos (rapazes peludos, fora do peso e muitos felizes)  invadem a fita debochando dessa  gente e trazendo o documentário de volta ao seu tema: loucura pouca é bobagem.

    Durante todo o tempo fiquei pensando na imensidão de São Paulo. Luffe não expande sua pesquisa para outros espaços por questão de opção temática mesmo assim fiquei pensando nos clubes de forró, nas boates da Vila Olimpia, nos puteiros do Centro e nas baladas da Vila Madalena que poderiam também gerar outras mil horas de fita e milhares de depoimentos. Como diria Fernanda Abreu, não importa se existe razão, a noite não tem pecado nem perdão. Então....salve a Paulicéia Desvairada !